Empatia: a grande força das pessoas altamente sensíveis

Empatia: a grande força das pessoas altamente sensíveis

01/01/2017 artigos Rosalira Oliveira

empatia, grande força

Imagino que você deve estar pensando que eu estou brincando. Como assim, a grande força das pessoas altamente sensíveis? Como pode ser uma força aquilo que me faz sofrer? Aquilo que ao longo da minha vida tenho sentido como uma fraqueza? Por vezes como um verdadeiro tormento???

 

Ok! Como diria o Chapolin Colorado: “Não priêmos cânico!”. Vamos com calma. Primeiro que tudo estabeleçamos juntos o que vem a ser empatia e como ela se manifesta em nós, PAS. Certo?    

 

Segundo o Dicionário Médico-biológico, Histórico e Etimológico da Universidade de Salamanca[1], a palavra “empatia” deriva do adjetivo grego empathḗs “que Aristóteles, s. IV a.C., usa como ’apaixonado’; ´emocionado´; ´que sente dentro´”.

 

O mesmo dicionário dá a palavra “empatia” a seguinte definição:

“Capacidade para participar nos sentimentos de outra pessoa e assimilar-se a seu estado anímico; nasce da identificação com o outro e da compreensão íntima de sua situação existencial; não deve confundir-se com simpatia".

 

Aposto que você já matou a charada. É isso mesmo, a empatia está diretamente ligada à emoção. Por esta razão é tão presente em nós, PAS, como uma espécie de consequência natural da forte emocionalidade que constitui uma das quatro características essenciais da alta sensibilidade.    

 

Olhando a definição acima você verá, também, que o mesmo dicionário faz um alerta para evitarmos a confusão entre empatia e simpatia. De fato esta é uma distinção muito importante. A palavra simpatia deriva, também, de um vocábulo grego sympathéa. Este, por sua vez,  se corresponde com o latim compassio de onde vem o sentido da palavra “compaixão”. E aqui se localiza a diferença: Na simpatia sentimos compaixão e nos solidarizamos com o sofrimento alheio. Já na empatia vivemos as emoções dos outros, por vezes (muitas vezes), absorvendo-as como se fossem nossas. 

 

Pessoas empáticas possuem a capacidade de sentir o que os outros sentem, de se colocar na mesma posição e vivenciar sua experiência. Por isso, pesquisadores do tema definem a empatia como o ato de experimentar, de maneira visceral e emocional, o sentimento de outra pessoa. Como uma espécie de ressonância, um espelhamento da emoção alheia.

 Ok, mas porque a empatia seria uma força para nós PAS?

 

Antes de responder a essa questão vale à pena retomar a reflexão da dra. Aron, quando afirma que se a alta sensibilidade constitui um traço compartilhada por cerca de 15 a 20% dos indivíduos da espécie humana é porque desempenha uma função importante na preservação da mesma. Na opinião dela esta função está relacionada à tendência para ser precavido e detalhista, avaliando bem as situações e seus possíveis desdobramentos antes de agir. Com isso, as sociedades e grupos poderiam se beneficiar tanto da tendência exploratória e conquistadora dos tipos mais arrojados, quanto da capacidade analítica e reflexiva dos altamente sensíveis. Ela chama a isso nossa vocação de “sacerdote-conselheiro”.

 

Quero complementar essa leitura adicionando uma outra hipótese: a alta sensibilidade é útil para a espécie humana na medida em que as pessoas com esta característica são especialistas na construção de vínculos sociais. Entendeu aonde eu pretendo chegar? A empatia nos torna experts em relações. Somos muito bons em harmonizar pessoas, diminuir atritos e minimizar potenciais conflitos. E a empatia é a nossa principal ferramenta nesse trabalho.   

 

O que quero dizer é que a empatia é diretamente responsável por nossas, bem desenvolvidas, habilidades sociais.  Empáticos são interlocutores cobiçados porque são capazes de transmitir aos outros a sensação de serem realmente compreendidos e aceitos. Esta é uma qualidade extremamente útil em sociedades de todo o tipo, na família e no trabalho, especialmente nas chamadas “profissões sociais”: Professores, terapeutas, coaches, médicos, enfermeiras ou assistentes sociais. Na verdade, a empatia é uma habilidade crucial em qualquer atividade na qual se precise reunir pessoas em torno de um objetivo comum. É por isso que as PAS costumam ser muito bem-sucedidas em cargos de liderança ou gestão de equipes.

 

Graças à empatia as PAS também dão ótimos cuidador@s.  Criaturas vulneráveis – crianças, animais, doentes ou pessoas em sofrimento emocional – sentem-se instintivamente atraídas em sua direção, pressentindo que encontrarão nelas o acolhimento que necessitam. Ou você já se esqueceu de quantas vezes as pessoas próximas (ou nem tão próximas) vieram até você em busca de um “ombro amigo”?

 

Em resumo, se eu tivesse que enumerar as vantagens que a empatia nos proporciona, citaria, pelo menos, estas:   

 

  • Solidariedade
  • Competência emocional
  • Intuição aguçada
  • Habilidades sociais
  • Habilidades de liderança
  • Capacidade para avaliar o caráter dos demais
  • Ser prestativo
  • Capacidade de acolher os demais 
  • Protecionismo em relação aos mais fracos
  • Senso de justiça
  • Sintonia profunda com a natureza…

 

Mas, e as desvantagens?

 

Ok, ok! Não estou esquecendo os aspectos menos agradáveis (e mesmo dolorosos) da empatia. E nem poderia fazê-lo. Não apenas por tê-los presentes na minha própria vida, como também, pelo fato de que sempre que pergunto a uma PAS que aspectos da alta sensibilidade lhe trazem mais dificuldades no dia a dia, a forte emocionalidade e a empatia surgem entre os primeiros da lista.

 

Concordo que não é fácil viver assimilando dores que não são suas e lidando com um alto grau de identificação com o sofrimento alheio. Não são poucas as PAS que chegam ao ponto de assumirem as dores físicas de pessoas próximas ou mesmo de estranhos, sejam humanos ou animais.   E nem precisa se tratar de pessoas reais. Uma vez levei tão longe a identificação com a personagem central de um conto chamado “O quarto fechado”, que tive um episódio de claustrofobia, que só consegui interromper quando identifiquei a fonte e fechei o livro!  Claro que isso ocorreu antes de que eu conhecesse a minha alta sensibilidade e a levasse em consideração na hora de escolher os livros que vou ler e os filmes que vou assistir.

 

Enfim, o que quero dizer é que com certeza não serei eu a pessoa que vai negar que a empatia possui um lado difícil de lidar.  A empatia exacerbada pode criar uma conexão perigosa baseada no co-sofimento e na ausência de limites claros entre o eu e o outro. Nestes casos, podemos nos envolver demais em situações que não nos pertencem até chegarmos no limite do esgotamento tentando “resolver” a vida alheia. Também podemos nos tornar vítimas de pessoas que, de maneira consciente ou inconsciente, sugam nossa energia, convertendo-a em harmonia e cura para elas e nos deixando totalmente drenad@s. Se você é uma PAS sabe exatamente do que estou falando.

 

Em todos estes casos estamos tratando da empatia exacerbada que traz consigo uma série de dificuldades que complicam, e muito, a vida de uma PAS, por exemplo:

 

  • Absorver os sentimentos alheios;
  • Não saber dizer não; 
  • Magoar-se facilmente por ofensas reais ou imaginárias;
  • Tensão e ansiedade por não conseguir livrar-se das emoções assimiladas;
  • Ter medo de conflitos, e/ou pelo contrário, ser capturad@ pela energia de um conflito e se perder dentro dele;
  • Perder o contato com o próprio eu e tornar-se incapaz de reconhecer e expressar suas necessidades;
  • Preocupar-se demasiadamente com a opinião alheia;
  • Adaptar-se constantemente as expectativas dos demais….

               

E outras “cositas más.”. A lista é bem extensa. O importante é destacar que estamos diante do velho problema PAS de delimitação de suas fronteiras físicas, energéticas e emocionais. Acolher algo que não lhe pertence (seja uma doença ou um estado emocional) é um indicativo claro de uma dificuldade em criar e manter limites e da incapacidade de se manter em seu próprio centro.   

 

Por isso fique atent@ e observe o modo como você se relaciona com seu meio ambiente.  Se você tem a tendência a “sair fora” do seu centro e “presentear-se” ao seu entorno, seu centro torna-se vazio, como se não houvesse uma pessoa ali. Dito de outra maneira, o Eu perde a capacidade de proteger-se e se torna profundamente vulnerável àquilo que o ambiente lhe impõe. Como se não existisse nenhum tipo de filtragem (ou camada de proteção) entre você e o mundo e tudo lhe atingisse de maneira profunda. Em casos extremos, a pessoa pode chegar se sentir como se estivesse arrancando pedaços de si mesma para atender as necessidades dos demais. Nestes casos a empatia perde o seu verdadeiro sentido e se transforma numa fonte de sofrimento. 

 

Entretanto, repare bem: o problema aqui não é a empatia, mas sim, a ausência de fronteiras eficientes entre a pessoa altamente sensível e o seu ambiente, consequência da alta sensibilidade não reconhecida e não canalizada.

empatia, grande força I

E então? O que fazer?

 

A resposta depende do seu objetivo. Seja sincer@. O que você realmente pretende? Congratular-se (ainda que apenas para si mesm@), por ser uma pessoa tão bondosa, mesmo que, por vezes, se sinta usada pelos demais e alimente o sentimento de ser amada apenas em função daquilo que doa? Ou estabelecer limites saudáveis e dizer não quando sentir necessidade, mesmo que com isso deixe de ser vist@ como a “pessoa boazinha”?  

 

Sei que a pergunta pode parecer ofensiva, mas também sei que, por vezes, pode haver uma grande discrepância entre a imagem que nós, PAS, apresentamos ao mundo exterior e a forma como nos sentimos internamente. E penso que o primeiro passo para estabelecer limites é perder o amor por esta máscara de bondade e perfeição, que pode estar lhe impedindo de considerar as próprias necessidades e atuar como um ser humano e não como uma criatura angelical.

 

O segundo passo seria avançar na trilha do conhecimento e do autoconhecimento. Sei que já falei disso antes, mas pretendo continuar repetindo. Quanto mais você souber sobre a alta sensibilidade melhor compreenderá suas reações e poderá integrá-la de forma positiva na sua vida. Compreender que a empatia constitui uma parte fundamental do traço pode lhe ajudar a lidar com ela no dia-a-dia: reconhecendo sua tendência a “ir em direção do outro”, mas tendo o cuidado de permanecer atent@ aos próprios limites. 

 

O trabalho de autoconhecimento pode também lhe ajudar a identificar as emoções as quais você é mais sensível. Lembra que usei o termo ressonância quando descrevi a empatia? Pois bem, acredito que somos mais sensíveis àquelas emoções que já fazem parte do nosso repertório emocional. Ou seja, aquelas com as quais convivemos e que, por conta disso, entramos mais facilmente em ressonância. No meu caso, por exemplo, sendo uma pessoa ansiosa sou particularmente aberta a captar esta emoção nos demais e a absorvê-la como se fosse minha. A resposta aqui é um trabalho constante de auto-observação, para ser capaz identificar o próprio estado emocional e evitar entrar em uma relação de “con-fusão” com o outro.

 

Por fim, a tarefa (interminável para uma PAS) de construir e fortalecer as próprias fronteiras.  Existem várias técnicas para este fim, mas gostaria de sugerir uma simples meditação de proteção.

 

“Sente-se num lugar confortável e imagine uma esfera de luz, um campo de energia, cercando você e recobrindo todo o seu corpo. Preencha este campo com a cor que intuitivamente sinta como a mais protetora e relaxe. Deixe-se ficar por um tempo inalando essa energia de paz, relaxamento e proteção. Quando se sentir reenergizad@, imagine que o campo de energia se contrai e se converte em um manto (ou uma capa protetora) que recai sobre seu corpo, como se fosse uma segunda pele, protegendo-lhe das energias estranhas e deixando passar apenas aquilo que você permite. Encerre a meditação e leve a consciência deste manto de proteção para o seu dia-a-dia”.

 

Esta é uma fórmula bastante esquemática de uma meditação de proteção. Você pode (e deve) adaptá-la ou substitui-la por algo que lhe pareça mais adequado, como uma prece, por exemplo. O importante é que trabalhe no reforço do seu espaço pessoal. E que faça disso uma prática cotidiana. Fronteiras exigem manutenção. Elas constituem seu direito, sua responsabilidade e sua maior fonte de dignidade. Mas não fique perturbad@, se fraquejar. Simplesmente, continue praticando. Você só tem a ganhar com isso.

 

Espero que este artigo tenha lhe ajudado a começar a lidar melhor e a verdadeiramente apreciar a sua empatia (seu sentido de aranha). Mas se você sente que precisa de mais ajuda para desfrutar deste dom maravilhoso, entre em contato comigo e se informe sobre o Programa Ame sua Sensibilidade. Talvez um processo de coaching seja a ajuda que você precisa para enfrentar este desafio.  

 

Um grande abraço! 

 

Rosalira

 

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[1] Disponível em http://dicciomed.eusal.es/palabra/empatia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Sobre o autor
Rosalira Oliveira Sou coach com formação em coaching ontológico e especializada em alta sensibilidade. Fiz minha transição recentemente, quando encerrei meu ciclo como pesquisadora e doutora em antropologia cultural e tornei-me criadora do “Ame sua sensibilidade”, um programa de coaching destinado a ajudar as pessoas altamente sensíveis a compreender e integrar em essa sua característica, de modo a viver uma vida com mais felicidade e significado.

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