Ser altamente sensível e (conseguir) dizer não

Ser altamente sensível e (conseguir) dizer não

28/03/2017 artigos Rosalira Oliveira

altamente sensível e dizer não

De modo geral, para nós PAS, é muito difícil dizer não. Basta começar a pensar em dizer esta palavra que logo nos vem à mente as suas possíveis consequências: a frustração da outra pessoa, a discussão que vai se seguir (com ela tentando nos convencer e nós esforçando-nos por manter nossa posição) e, a pior de todas as consequências, a outra pessoa ficar zangada conosco.  Tudo isso e muito mais passa pela nossa cabeça enquanto decidimos o que dizer (somos muito bons em criar filminhos imaginários). Assustados diante de todas essas possibilidades, geralmente acabamos dizendo sim e nos arrependendo no momento seguinte.

 

Por que nos arrependemos? Por vários motivos. Porque já estamos sobrecarregados tentando dar conta de todas as nossas tarefas e também das alheias (que assumimos por não saber dizer não); porque não nos agrada o compromisso que acabamos de assumir; porque no fundo nos sentimos explorados com todos os favores que acabamos fazendo para os demais; porque estamos estressados e hiperestimulados e precisamos de um tempo para desconectar… A lista é extensa e bem conhecida de muitos de nós.   

 

Porque nos custa tanto dizer não?

E porque prosseguimos pela vida dizendo sim a todos, sobrecarregando-nos com lista de coisas a fazer e desconsiderando nossas reais necessidades? A resposta pode variar para cada um de nós, mas de um modo geral podemos listar alguma das razões:

 

  •  A extrema empatia que faz com que estejamos dolorosamente conscientes das necessidades alheias;
  •  O medo da reação do outro e nossa “alergia” a conflitos
  •  O desejo de agradar e ser querido por todos;
  •  A expectativa social que nos diz que pessoas que dizem não são egoístas (o que nos gera muita culpa) e,
  •  O desejo verdadeiro de ajudar ao outro

 

Para cada caso, muitos destes motivos (e outros mais) podem estar atuando juntos. O mais importante é perceber as causas mais profundas desta dificuldade e as consequências para a nossa vida. Uma dessas causas é, sem dúvida, a questão da autoestima. Embora todos sejamos em algum nível dependentes da aprovação alheia, nós PAS, temos a tendência a supervalorizar as opiniões (verdadeiras ou imaginarias) que os outros possuem a nosso respeito. Isso faz com que nosso autorrespeito oscile em função da aprovação externa. Na busca dessa aprovação, muitas vezes perdemos nosso centro e nos sentimos como se estivéssemos dando pequenos pedaços de nós aos demais.

 

Não é preciso dizer o quanto esta situação pode nos tirar de energia, alegria e autenticidade. Seguir pela vida dizendo sim quando queremos dizer não é um ato de profunda autonegação. É abdicar de si mesmo em favor de uma máscara, uma persona social criada para obter aprovação e que, ao final, oculta nosso eu verdadeiro, não apenas dos outros como também de nós mesmos. Cada vez que dizemos sim quando efetivamente queremos dizer não, estamos comprometendo a nossa dignidade. Cada vez que dizemos não e nossa vontade não é levada em consideração, nos sentimos desrespeitados.

 

Dá para mudar?

Dizer não não é uma opção fácil e somente podemos fazê-lo quando nos mantemos conscientes do que está em jogo. Foi só quando decidi que já não tinha tempo para viver de acordo com os códigos alheios e que precisava correr atrás da vida e do trabalho que sonhava, que tive condições de dizer não àquilo que não tinha a ver com este propósito. Fazer 50 aos me dotou de um sentido de urgência que me impulsionou a romper barreiras e buscar mais realização e autenticidade. E passei a dizer não com mais frequência e clareza. Não é uma conquista definitiva e ainda me pego cedendo quando devia manter meu ponto de vista, mas agora reconheço que há algo mais valioso em jogo: meu tempo, minha saúde, meus sonhos…

 

O que percebi neste momento foi que até então eu havia vivido de acordo com um roteiro predeterminado por outras pessoas (a família, amigos, a sociedade…). E que o não saber (ou não poder) dizer não fora fundamental para que eu trilhasse este caminho de autonegação. Na verdade, eu poderia dizer que cada sim dito quando queria dizer não, foi mais uma pedra pavilhando esse caminho.  Com isso aprendi que muitas vezes ao dizermos sim aos outros é a nós mesmos que estamos dizendo não. E você? A quais sonhos está dizendo não quando diz sim a todos?

 

A força para dizer não

Porém saber disso não é suficiente. É necessário algo mais para que possamos honesta e conscientemente dizer não. Penso que este algo mais tem a ver com nosso centro. Encontrar o próprio centro tem a ver com autoconhecimento. “Conhece-te a ti mesmo” estava escrito no pátio do tempo de Apolo em Delfos.  Você realmente conhece-se a si mesmo? Sabe quais são seus valores, suas aspirações, sua definição pessoal de sucesso e de felicidade? 

 

Há muitos caminhos para buscar as respostas. Um deles é fazer silêncio.  Dar um tempo no constante falatório interno e externo e simplesmente ouvir a sua alma. Outro passo importante é a prática do não julgamento. Quando deliberada e conscientemente nos afastamos do mundo dos julgamentos e deixamos de rotular as outras pessoas, começamos a perder o medo de sermos julgados. Simplesmente saímos dessa dança e vamos nos transportando a um modo diferente de ver o mundo e a nós mesmos.

 

Mas encontrar o próprio centro não é suficiente, é necessário dar um passo além e decidir viver de acordo com ele. Reverenciar o próprio centro como a presença do divino dentro de cada um de nós implica em assumir o compromisso de viver de maneira coerente com nosso eu verdadeiro. E nessa caminhada não há espaço para aceitar (ou praticar) manipulações, chantagens, birras e outras formas de coerção.

 

É difícil? Muito. E ainda mais difícil para nós, PAS, pelas razões que falamos no artigo anterior (e muitas outras mais). Mas é ainda mais necessário para nós também. Sendo parte de uma minoria de pessoas que possuem um limiar de saturação e de tolerância a estímulos mais baixo que a maioria, é imperativo que saibamos defender nossa sensibilidade recusando-nos a ir além dos nossos limites (físicos, mentais e energéticos). Portanto, enquanto avançamos na busca do nosso centro, podemos usar algumas estratégias para tornar menos doloroso o ato de dizer não.
 

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Como dizer não?

Antes de tudo, tenha bem claro que dizer não é seu direito. Afinal é do seu tempo, energia, recursos de que se trata. Não há necessidade de se desculpar. Por isso tente falar com tranquilidade e naturalidade.  Da próxima vez que for confrontado a um pedido ao qual queria responder não, experimente uma dessas frases: 

 

  • “Não posso me comprometer com isso, tenho outras prioridades neste momento” 
  • “Não é uma boa hora, estou no meio de uma atividade. Podemos conversar mais tarde?”
  • “Adoraria fazer isso, mas…”
  • "Preciso pensar primeiro. Depois te digo alguma coisa.”
  • “Não sou a melhor pessoa para lhe ajudar com isso. Porque não fala com fulano?”
  • “Lamento, mas, não posso.”

 

Estas são sugestões que você pode usar ou criar suas próprias frases de negativa. Para as pessoas com alta sensibilidade ter um repertório de frases que ajudam a dizer não de forma cortês apresenta duas vantagens: Por um lado, permite-nos ter a certeza de que estamos sendo respeitosos com a outra pessoa ao negar seu pedido.  E, por outro ajuda a evitar que, no auge da excitação e estresse causados pela solicitação, acabemos dizendo sim simplesmente por não saber o que responder. Tente.

 

Por fim, quero acrescentar uma coisa: a dificuldade de dizer não está também ligada à dificuldade em ouvir um não. Nossa tendência a magoar-nos com facilidade pode nos levar a sentirmo-nos ofendidos quando nos deparamos com uma recusa aos nossos pedidos. Para poder dizer não livremente é imperativo reconhecer e respeitar a liberdade do outro, aceitando-o como legítimo outro, sem chantagens, pressões ou cobranças. Duro aprendizado que depende de muito esforço. Um trabalho composto por autoconhecimento, auto-observação, e autocuidado, para dizer o mínimo.

 

Entretanto, se mesmo compreendendo a importancia de dizer não, você sente dificuldade em construir a segurança necessária para manter essa atitude, conheca o Programa Ame sua Sensibilidade, talvez um trabalho de coaching seja o indicado para você.   

 

Beijos e bênçãos,

 

Rosalira

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Sobre o autor
Rosalira Oliveira Sou coach com formação em coaching ontológico e especializada em alta sensibilidade. Fiz minha transição recentemente, quando encerrei meu ciclo como pesquisadora e doutora em antropologia cultural e tornei-me criadora do “Ame sua sensibilidade”, um programa de coaching destinado a ajudar as pessoas altamente sensíveis a compreender e integrar em essa sua característica, de modo a viver uma vida com mais felicidade e significado.

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