Alta sensibilidade e baixa autoestima: Uma relação perigosa

Alta sensibilidade e baixa autoestima: Uma relação perigosa

02/06/2017 artigos Rosalira Oliveira

baixa autoestima

 

No seu livro, “The Undervalued Self” (ainda sem tradução em português), a dra. Elaine Aron trata do tema da baixa autoestima, reconhecendo-o como uma dificuldade bastante comum entre as PAS. De fato, tantas pessoas altamente sensíveis sofrem por conta de uma autoimagem negativa, que tem se difundido uma visão equivocada que associa automaticamente essas duas condições, como se a baixa autoestima fosse uma consequência direta da alta sensibilidade.

 

Por isso mesmo é importante deixar bem claro que, ainda que por vezes se apresentem juntas, a baixa autoestima não constitui um aspecto intrínseco da alta sensibilidade. Nem todas as pessoas altamente sensíveis convivem com sentimentos de dúvida e/ou de descrença a respeito de si mesmas. Muitas PAS são pessoas felizes e confiantes que aprenderam a usar suas qualidades sensíveis como uma vantagem. Mas, existem também aqueles(as) dentre nós que lutam constantemente com uma sensação de insegurança e menos-valia, não como resultado da alta sensibilidade, mas como consequência de viver em um mundo que não acolhe e nem respeita sua sensibilidade, além do fato de não saber como lidar com algumas das características associadas ao traço. Isso equivale a dizer que as causas dos (possíveis) problemas de autoestima das PAS constituem um conjunto formado tanto por fatores externos, quanto internos.

 

Baixa autoestima entre as PAS: Fontes externas

 

Quando falo em causas externas da baixa autoestima entre as PAS, estou me referindo àquelas condições vinculadas ao meio ambiente em que atuamos e, principalmente, no qual crescemos. Dentre estas eu citaria, em primeiro lugar, o grande desconhecimento a respeito da alta sensibilidade e das características e necessidades de uma pessoa altamente sensível. Este desconhecimento leva a que, desde muito cedo, a pessoa altamente sensível se sinta incompreendida e isolada em relação aos demais. Ainda na infância a maioria de nós é inferiorizada e estigmatizada através do uso de rótulos como “tímido”, “medroso”, “esquisito”, “dramático”, “antissocial” e outros que contribuem para criar esta sensação difusa de que “há algo errado comigo”, que muitas PAS carregam pela vida afora. Tudo isso acrescido dos bem-intencionados conselhos e esforços de pais, amigos e professores visando nos “ajudar” a “sair da casca” e a “ser como todo mundo” para o “nosso próprio bem”, que, na verdade, apenas reforçam a percepção de que temos (ou somos) um “problema”. 

 

Outro ponto a ser destacado é o significado atribuído pela nossa cultura à sensibilidade. Na visão predominante ser sensível é o mesmo que ser fraco. A pessoa altamente sensível que incorpora esse conceito passa, realmente, a se ver como alguém fraco e sem defesas e pode, em alguns casos, chegar a detestar a própria sensibilidade. Ou, no outro extremo, a pessoa se endurece e procura refúgio numa máscara de força e indiferença que traz como consequência uma cisão interna e um afastamento cada vez maior dos próprios sentimentos. O que não deixa de ser uma forma de autonegação com impactos profundos sobre a autoestima. Independente da estratégia adotada, o fato é que é bastante difícil para qualquer pessoa sentir-se bem consigo mesma quando recebe frequentemente a mensagem de que há algo de errado com ela.  Com tudo isso não é de admirar que a autoestima de algumas PAS tenha mais buracos que um queijo suíço.

 

E fontes internas:

 

Os fatores internos que influenciam a autoestima das PAS estão relacionados ao modo peculiar como funciona o nosso sistema nervoso e à maneira como lidamos com algumas das características vinculadas ao traço. Dentre elas eu destacaria:

 

  • A tendência a processar tudo com muita profundidade, que nos leva a rever e reviver cada pequeno erro cometido até chegarmos à conclusão que somos, intrinsecamente, incompetentes. Quando atingimos esse estágio estamos diretamente sobre o domínio do Crítico Interior, o mais poderoso e universal de todos os sabotadores. A crítica constante patrocinada pelo Crítico Interior constitui um verdadeiro veneno para a autoestima. Simplesmente não é possível construir uma autoestima saudável quando estamos submersos no seu domínio, uma vez que ele baseia a sua atuação na perspectiva do amor condicionado. Esta perspectiva nos leva a acreditar que não somos s dignos de amor e de respeito sendo apenas quem somos e que precisamos “conquistar” o amor e o respeito das outras pessoas, corrigindo constantemente aquilo que há de “errado” em nós, ou ainda, escondendo cuidadosamente as nossas falhas. Com isso nosso sentido de valor passa a depender da aprovação alheia e passamos a nos manter o tempo todo em estado de alerta tentando evitar cometer erros e escondendo as nossas “falhas”, como uma forma de nos protegermos das críticas. 

 

  • O perfeccionismo e o medo de cometer erros. O perfeccionismo nas pessoas altamente sensíveis costuma estar diretamente relacionado ao medo de cometer erros e à preocupação excessiva com a opinião das outras pessoas. Estes dois medos se podem ser conjugados num único: o terror de se sentir criticado, principalmente em público. Vivendo sob o domínio do Crítico Interior, muitas PAS projetam nas outras pessoas a avaliação negativa que têm a respeito de si mesmas, de suas habilidades e capacidades. O perfeccionismo nestes casos aparece como uma estratégia de defesa, na qual a pessoa cria um padrão extremamente alto de expectativa e se autoavalia com base neste padrão inflacionado como uma forma de garantir que seu comportamento não será alvo de críticas das outras pessoas. Um dos graves problemas criados por esta estratégia é que quando repudiamos o erro podamos nosso processo de crescimento pessoal, pois sabotamos o processo de aprendizado que implica em cometer erros. Em consequência não apenas rebaixamos nossa autoestima – já que nos medimos por um parâmetro de perfeição inatingível – como, também, criamos uma situação de imobilização. Uma situação na qual cada vez nos arriscamos menos com medo de errar e, por conseguinte, não aprendemos a lidar com os erros e passamos a superestimar nossas fraquezas, aumentando o nosso medo de correr riscos, o que nos mantém presos numa zona de conforto cada vez mais reduzida.

 

  • A extrema preocupação com a opinião alheia. Outra característica da alta sensibilidade que pode minar a nossa autoestima é a preocupação exacerbada com a opinião alheia. Muitas PAS dão extrema importância à sua imagem, preocupando-se muito em causar uma boa, ou melhor muito boa, impressão.  Adotam uma atitude de sondagem em relação as pessoas e ao meio ambiente, sempre procurando descobrir o que agrada ao outro e buscando moldar seu comportamento em função dessa percepção. Não é incomum que deixem de expressar suas opiniões ou desejos com medo de não agradarem ou de não serem aceitas. Com isso passam a reprimir sua verdadeira personalidade e a viver sob a sensação de serem “uma fraude”. Mais ainda, esta extrema preocupação com o olhar do outro e sua (possível) avaliação negativa, geralmente nos leva a atuar mal quando nos sentimos observados, rebaixando a nossa autoconfiança com consequências danosas para a nossa autoestima.

 

  • A tendência a comparar-se com as demais pessoas. As comparações com os demais, especialmente com as pessoas de sensibilidade média, são outra grande fonte de ataques à nossa autoestima. A maioria das PAS simplesmente assume que “deveria” ser capaz de: tolerar a mesma quantidade de estímulos que os outros; controlar suas emoções da mesma forma; sentir as coisas com menos intensidade; ser menos afetada pelas emoções alheias; e por aí vai. Enxergam nas outras pessoas supostas qualidades que fazem com que se sintam pequenas e inadequadas. Fazem isso a partir de um modelo ideal, um padrão imposto pela sociedade que, em muitos casos, aceitaram sem questionar. Com isso, deixam de notar e de valorizar suas próprias qualidades e talentos, sem considerar, por exemplo, que se os outros conseguem lidar com uma quantidade maior de dados sem se esgotar, isso se deve, simplesmente, ao fato de que seus filtros sensoriais deixam passar menos estímulos. Esta tendência somada ao perfeccionismo leva muitas PAS a ampliar à milésima potência os próprios erros e minimizar ou desvalorizar seus sucessos e acertos.  

 

E ai? como lidar?

baixa autoestima1

Ainda que existam casos graves, onde se faz necessária uma terapia especializada, penso que é possível desenvolver uma autoestima forte e saudável com pequenos passos, desde que sejam praticados de forma consciente e comprometida no dia-a-dia. Um dos que considero particularmente importantes é a convivência com outras PAS. Estar com pessoas cuja sensibilidade é semelhante à sua pode ser uma experiencia bastante curativa, ajudando a eliminar a sensação de ser diferente e de não encaixar. Esta é uma sugestão da própria dra. Elaine Aron. Diz ela:  “Você precisa sentir como é estar com aqueles que tem um temperamento como o seu. Você precisa ouvir outras histórias. Você precisa estar convencido de que você não está sozinho e não é anormal”.

 

Para além deste encontro com seus pares, gostaria de sugerir outras pequenas, porém importantes, mudanças de comportamento que podem ajudar-lhe a diminuir o nível de autocrítica e começar a reconhecer seu próprio valor.

 

  1. Aceite seus pensamentos, emoções e sensações como são. Não os julgue e nem os supervalorize. Eles são neutros e não definem quem você é. Reconheça-os pelo que são, lembrando que são fugazes e podem ser modificados. Experimentar dor em seu corpo ou em sua psique não significa que você é fraco. É apenas uma sensação a qual você atribui um sentido. Da mesma forma pensar:  "Eu queria ser mais como Fulano", não significa que você não é bom o suficiente. É apenas um pensamento circunstancial que você pode observar, reconhecer e, depois, deixar ir.

 

  1. Elimine a palavra “deveria” do seu vocabulário. Deveria vem sempre de um lugar de julgamento. Examine suas crenças, especialmente aquelas que incluem a palavra deveria. Pergunte-se: O que acontece quando eu transformo o “eu deveria” em “eu poderia”?  Essa mudança me abre outras opções? Encoraja menos julgamento e mais autoaceitação? Quando digo "eu deveria estar fazendo mais" estou fazendo um julgamento que me leva a sentir.me culpada ou, no mínimo, incompetente. Enquanto quando digo "eu poderia estar fazendo mais" sou levada a ponderar sobre as opções que estão abertas para mim em uma determinada situação, sem julgamentos condenatórios.

 

  1. Aprenda a se autoperdoar.  Precisamos nos perdoar por nossas faltas do passado. Vergonha, arrependimento e culpa são grandes inimigos da autoestima e do senso de valor. Muitos de nós acham mais fácil perdoar os outros do que a si mesmos. Mas também precisamos aplicar essa compaixão a nós mesmos, reconhecendo que podemos cometer erros e que estes não afetam o nosso valor, que é intrínseco.

 

  1. Faça um balanço de seus talentos. Reconhecer seus pontos fortes serve para lhe dotar de um sentido de valor e de entusiasmo para levantar-se com energia a cada dia. Cada um de nós é um ser único que possui habilidades e talentos distintos e igualmente necessários à sociedade. Nossa tarefa é identificar nossos dons e oferece-los aos demais.

 

  1. Celebre seus sucessos! Reconheça e comemore cada um deles. Parabenize-se.  Quando não conseguimos reconhecer as coisas boas que alcançamos na vida – mesmo que pequenas – tampouco conseguimos nos sentir realizados, capazes ou competentes, ao contrário vivemos com uma sensação constante de insatisfação. Por isso, que tal desenvolver o hábito de enumerar para si mesmo(a) as coisas boas você conseguiu realizar ao final de cada dia? Não pense no que não fez ou no que ficou pendente. Pense apenas que conseguiu fazer e permita-se sentir orgulho e gratidão pelo resultado do seu esforço.   

 

  1. Mime-se. Aprenda a tratar-se com amor e de carinho. Presenteie-se, cuide de você: do seu espaço físico, do seu corpo, da sua aparência, etc. Comece cada dia planejando uma pequena alegria: uma caminhada num lugar agradável, um banho demorado, um perfume, uma roupa nova, não importa. A ideia aqui é (re)lembrar que você é digno(a) de carinho e de atenção e aprender a suprir esta necessidade, que é legitima, sem depender exclusivamente das outras pessoas.    

 

Estas são apenas algumas das atitudes que você pode incorporar à sua vida visando aumentar a sua autoestima. Contudo, você pode encontrar dificuldades para fazer isto sozinho e sentir a necessidade de ter alguém que possa lhe acompanhar neste trajeto. Se for este o caso, entre em contato comigo e informe-se sobre o meu programa de coaching ou cadastre-se para receber mais informações sobre a próxima turma do PAS- Programa Ame sua Sensibilidade, meu treinamento online voltado para pessoas altamente sensíveis. E se quiser ficar informado sobre os novos artigos do blog e sobre os eventos online, clique no banner abaixo e se  inscreva na minha newsletter, 

 

Beijos e bênçãos,

 

Rosalira

 

 

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Sobre o autor
Rosalira Oliveira Sou coach com formação em coaching ontológico e especializada em alta sensibilidade. Fiz minha transição recentemente, quando encerrei meu ciclo como pesquisadora e doutora em antropologia cultural e tornei-me criadora do “Ame sua sensibilidade”, um programa de coaching destinado a ajudar as pessoas altamente sensíveis a compreender e integrar em essa sua característica, de modo a viver uma vida com mais felicidade e significado.

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