Aguentar e ir levando: uma estratégia de alto custo para uma Pessoa Altamente Sensível

Aguentar e ir levando: uma estratégia de alto custo para uma Pessoa Altamente Sensível

01/11/2018 artigos Rosalira Oliveira

Se há uma coisa que encontro com frequência entre meus clientes, ou em outras PAS com as quais tenho contato, é esta sensação de ir levando a vida aos trancos e barrancos. Fazendo um grande esforço pessoal para simplesmente aguentar as pressões e imposições do dia-a-dia.

 

Ao contrário do que muita gente pensa, as pessoas com alta sensibilidade raramente são do tipo que se queixa e exige atenção o tempo inteiro. O mais comum é que sejam pessoas conscienciosas, que se esforçam (muitas vezes em demasia) para evitar dar trabalho aos outros ou chamar a atenção sobre si mesmas. É por isso que muitas delas se acostumam a simplesmente aguentar e ir levando, de tal forma que este comportamento se torna, por vezes, uma espécie de segunda natureza.

 

Isto lhe soa familiar? Pois é. Talvez você reconheça em si mesmo(a) este padrão de comportamento. Aguentar de maneira constante, tanto em situações importantes, como em outras, tão corriqueiras que passam desapercebidas: aguentar o temperamento difícil de algumas pessoas; aguentar as demandas constantes; aguentar relações complicadas;  aguentar a fome;  aguentar a sede;  aguentar horas e horas de trabalho contínuo; aguentar festas e reuniões, mesmo quando seu corpo e sua mente lhe pedem para ir para casa; aguentar a falta de sono, aguentar, por vezes, até mesmo a vontade de ir ao  banheiro… Aguentar inclusive a dor, mesmo que saibamos que as PAS tendem a senti-la  com maior intensidade que a média das pessoas. Aguentar, aguentar, aguentar. Aguentar e ir levando.

 

Vejo os efeitos dessa estratégia nos meus clientes de coaching. A maioria chega para iniciar o trabalho visivelmente esmagada por todo o tempo que tem feito do aguentar e ir levando seu estilo de vida. Torna-se rapidamente evidente que eles estão no seu limite:  sobrecarregados, superestimulados e, sobretudo, profundamente cansados e sem energia.

 

Por que agimos assim?

Antes de responder à esta questão quero lhe chamar atenção para o fato de que eu escrevei “agimos”, e fiz isto porque eu, tal como você, também sou susceptível a este comportamento. Na verdade, durante muito tempo fiz do ato de aguentar um modo de vida.  E, mesmo hoje tenho, por vezes, a tendência a cair nesta armadilha. Os motivos para esta atitude por parte das PAS estão relacionados às características associadas ao traço, enquanto outros têm a ver com o tipo de sociedade na qual vivemos. Vejamos alguns:

 

  • Sentir necessidade de agradar a todos: É verdade que todo mundo, seja altamente sensível ou não, deseja causar uma boa impressão. Porém uma coisa é ser amável e saber colocar limites quando algo não agrada e outra coisa é ser amável passando por cima das próprias necessidades. Muitas PAS, talvez a maioria, dão grande importância à imagem e se preocupam muito com a maneira como os outros lhes veem e o que pensarão a seu respeito. Por conta disso se esforçam ao máximo para causar sempre uma boa (ou muito boa) impressão, mesmo que isso implique em reprimir suas emoções e deixar de lado suas necessidades e interesses para agradar aos demais. Este comportamento é, sobretudo, o resultado do medo de ser rejeitado(a), criticado(a) ou, o que é pior, abandonado(a). Outro aspecto dessa preocupação com a opinião alheia é o desejo de evitar atrair a atenção para si mesmo. Um certo esforço para se tornar “invisível” por medo do julgamento das outras pessoas.
  • Não saber estabelecer limites: Reconhecer os próprios limites e saber administrá-los em função das suas necessidades, pode ser um desafio para muitas PAS. Se você não presta atenção a si mesmo(a) e não conhece as suas necessidades como pode vigiá-las e se preocupar em satisfazê-las? O problema dos limites está diretamente ligado ao desejo de agradar a todo custo. Isto porque estabelecer um limite implica em, por vezes, dizer não às demandas alheias e correr o risco de desagradar. Porém, em última análise, estabelecer limites é se respeitar a si próprio(a).
  • Querer ser (ou parecer) perfeito(a):Este desejo leva muitas PAS a escolherem a atitude de aguentar e ir levando como um caminho para atingir a perfeição. Um exemplo seria o funcionário que aguenta horas e horas de trabalho extra para concluir uma tarefa que, na verdade, exigiria mais tempo para ser executada ou que fica até tarde da noite revisando mais uma vez um trabalho já concluído em busca do mais pequeno defeito. Outro caso é o da dona de casa que se exaure na limpeza da casa, vasculhando cada mínima partícula de poeira na expectativa de receber uma visita… Os exemplos são muitos e você possivelmente pode acrescentar vários outros. A grande questão aqui é compreender que por trás dessa busca pela perfeição se esconde, de modo geral, uma autoestima muito baixa e um precário sentido do própria valor como pessoa.
  • Tentar se adequar ao ideal social: Vivemos numa sociedade que valoriza a competição e a força. Crescemos ouvindo discursos sobre a sobrevivência dos mais fortes e a necessidade de nos “superarmos”. Isso tem um impacto negativo muito forte sobre as pessoas altamente sensíveis, que muito cedo se percebem como diferentes em relação a este ideal cultural. Algumas PAS lidam com este sentimento de se sentirem deslocadas fugindo de qualquer tipo de confronto, competição ou exposição pública. Já outras se especializam em aguentar e ir levando e fazem dessa estratégia a sua maneira de competir e sobreviver.

 

Algumas consequências de aguentar sempre

Como disse no título deste artigo, considero a estratégia de aguentar e ir levando, de muito alto custo para as pessoas altamente sensíveis. As consequências deste tipo de atitude costumam ser bastante danosas, ainda que nem sempre estejamos conscientes deste fato.

 

A primeira delas é, logicamente, a exaustão. Depois de passar muito tempo vivendo no limite das suas forças, a pessoa geralmente “capota”, caindo num colapso de energia no qual mesmo as mais simples atividades cotidianas se tornam um desafio difícil de ser superado. A exaustão costuma ser o resultado direto do acúmulo de estresse causado pelo aguentar além da conta e pode assumir a forma de uma doença física, burn-out, depressão ou outros transtornos. 

 

Outra consequência deste comportamento está relacionada à autopercepção de cada pessoa. Por trás da atitude de aguentar até não poder mais, se encontra uma percepção subliminar segundo a qual a pessoa vê a si mesma – sua energia, tempo, saúde, necessidades e emoções – como sendo algo não importante, podendo, portanto, ser descuidado e deixado de lado, em benefício de outros. Na medida em que esta percepção vai se enraizando na pessoa passa a ter profundas repercussões negativas em muitos níveis, como: autoestima, segurança, autoconceito e vários outros. Ao final, toda a personalidade se vê afetada por essa “habilidade”, tão desenvolvida em algumas PAS, de aguentar aconteça o que acontecer.

 

Outra repercussão negativa possível é que uma vez tendo identificado este padrão em si mesma, a pessoa altamente sensível tenda a cair no extremo oposto: não aguentando mais nada e buscando se impor a tudo e a todos.  E com isso se transforme num tipo de   pessoa intolerante, queixosa que está sempre cobrando dos demais e não aceita o mínimo descumprimento das suas expectativas. Todos nós conhecemos pessoas assim. De modo geral, este tipo de comportamento costuma ocorrer quando a pessoa se dá conta que seus “sacrifícios” não a levaram a ser mais querida ou respeitada como esperava que acontecesse.

 

Como sair desta armadilha? 

A verdade é que não é nada fácil apresentar um caminho para abandonar o hábito de ir levando. Em primeiro lugar porque esta atitude tende a se instalar como uma resposta à trajetória de vida de cada um de nós. Do mesmo modo que cada pessoa altamente sensível desenvolveu a sua maneira particular de aguentar, também as alternativas para a mudança deste comportamento precisam ser pensadas de maneira individualizada. E a única maneira eficaz de fazer isso é se engajando num trabalho pessoal de gestão do traço da alta sensibilidade.

 

Entretanto, creio que algumas atitudes podem servir como marcos no caminho a ser percorrido por cada PAS. E aqui vão as minhas sugestões:

 

  1. Aprenda a identificar e a prestar atenção aos seus sinais de saturação: Muitas PAS estão tão acostumadas ao cansaço e a exaustão que já nem se dão conta do que está acontecendo com seu corpo e sua mente e passam a considerar este estado como algo “normal”.
  2. Arranje espaço e tempo para reconectar-se com suas necessidades: Como disse acima, a estratégia de aguentar e ir levando pode se tornar tão enraizada que perdemos o contato com aquilo que nos faria felizes e passamos a encarar a vida como uma serie ininterrupta de obrigações. Neste ponto pode ser necessário criar uma pausa neste cotidiano cheio de obrigações para nos reencontrarmos com aquilo que alimenta a nossa alma.
  3. Faca uma lista das coisas que você está tolerando: Você pode até não reparar, mas nós tendemos a ficar sobrecarregados e oprimidos por coisas que se acumulam ao longo do tempo sem serem resolvidas e que acabam pesando e bagunçando nossas mentes. Então, faça uma lista de tudo o que está desordenando sua mente e sugando a sua energia. Você pode não querer fazer nada sobre essas coisas neste momento, mas o simples ato de tomar consciência delas pode fazer com que comece a se movimentar para resolvê-las. O exercício que apresento abaixo pode lhe orientar nesse processo.

Tolerâncias – Exercício

 

  1. Aceite a rejeição como algo que pode ocorrer (e ocorre) a todos nós. Como já vimos um dos grandes motivos que nos levam a estratégia de aguentar e ir levando é o medo de sermos rejeitados. Ocorre que, por mais dolorosa que seja, a rejeição é uma parte inevitável da vida e ninguém está imune a ela. E ainda que as PAS tendam a sofrer mais com a rejeição por refletirem em profundidade sobre tudo, elas também são mais capazes de tirar lições valiosas dessa experiência, devido a esta mesma capacidade de reflexão profunda.
  2. Desenvolva autocompaixão: Vejo a autocompaixão como o grande antídoto para o perfeccionismo. Tenha claro que não importa o quanto você se esforce e se sobrecarregue não conseguirá dar conta de tudo e fazer tudo de maneira perfeita. Desse modo precisa fazer uma escolha: continuar se recriminando por não conseguir atingir o seu (inatingível) padrão de perfeição ou aprender a tratar-se com o mesmo carinho e a empatia com que trataria uma pessoa querida. Trata-se de uma escolha e está em suas mãos.

 

Estas são algumas sugestões muito gerais para lhe ajudar a sair da estratégia de aguentar e ir levando. Como disse acima, cada pessoa é única e somente você pode saber qual o melhor caminho a seguir. De todo modo creio que o conhecimento e o respeito pela sua sensibilidade são sempre um ótimo ponto de partida.

 

Beijos e bênçãos,

 

 

 

 

 

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Sobre o autor
Rosalira Oliveira Sou coach com formação em coaching ontológico e especializada em alta sensibilidade. Fiz minha transição recentemente, quando encerrei meu ciclo como pesquisadora e doutora em antropologia cultural e tornei-me criadora do “Ame sua sensibilidade”, um programa de coaching destinado a ajudar as pessoas altamente sensíveis a compreender e integrar em essa sua característica, de modo a viver uma vida com mais felicidade e significado.

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