Sou PAS e faço tudo pela paz: a alta sensibilidade e o medo do conflito  

Sou PAS e faço tudo pela paz: a alta sensibilidade e o medo do conflito  

28/01/2017 artigos Rosalira Oliveira


medo do conflitoÉ fato. A maioria das pessoas com alta sensibilidade tem muito medo de situações de conflito e não sabe como lidar com elas. Quando uma PAS se vê diante de uma cena conflitiva se sente muito vulnerável e indefesa. Mais ainda se a outra parte estiver zangada, gritando ou fazendo acusações, buscando impor, a todo custo, suas razões.  Muitos de nós nos sentimos feridos nessas circunstâncias e alguns chegam a sentir uma dor física, mesmo que ninguém o tenha tocado. Nestas situações nos bloqueamos e não sabemos como reagir. Quanto mais violento o ataque, mais nos bloqueamos.

 

Qual é a causa desse bloqueio? O que nos acontece nessas horas? Quando estamos diante de uma pessoa zangada, principalmente se ela se expressa com gritos, somos assaltados por um turbilhão de emoções simultâneas. Isso faz com que, de modo geral, não sejamos capazes de responder adequadamente, simplesmente porque não conseguimos discernir e muito menos verbalizar todas as emoções diferentes que se entrelaçam formando uma bola indiferenciada de sentimentos e sensações dolorosas. À muitas PAS lhes custa pensar com clareza e articular as palavras.  O susto e o pânico fazem disparar a adrenalina ativando o já conhecido efeito “lutar ou fugir”. 

 

A maioria de nós tende a querer fugir e se esconder até a tempestade passar. Entretanto existem também algumas PAS que têm a tendência a lutar, explodindo de volta sem conseguir controlar a própria raiva e atuando como se estivesse “possuída” pela energia do conflito. Ainda que esta última reação não pareça tipicamente PAS na verdade é, pois a pessoa em questão age em resposta a um estado de hiperexcitação, provocado pela situação de estresse que está vivenciando. Ou seja, tanto o desejo de escapar como o impulso descontrolado de defender-se são o produto de um bloqueio, causado pela sobrecarga de informação sensorial combinada com o medo e a sensação de sentir-se agredido. Uma espécie de curto circuito emocional.    

 

Dentre as PAS cujo estilo incita à reação de fuga uma das estratégias mais comuns é a evitação. Fazemos de tudo para garantir que o conflito não ocorra: ocultamos nossas necessidades e desejos, concordamos com aquilo que os outros querem, engolimos desacordos, atuamos como os demais esperam de nós e … vamos inchando, acumulando mágoas ressentimentos ao longo do tempo.  Se agimos dessa maneira rapidamente caímos na armadilha do rancor e da vitimização.

 

Outra estratégia comum é simplesmente não reagir. Seja por bloqueio ou por intencionalidade, escolhemos o silêncio como resposta. Esta não-reação costuma ter o efeito oposto ao desejado, já que, na maioria dos casos, ao invés de acalmar o interlocutor tende a enfurece-lo ainda mais. Isto acontece principalmente se a outra pessoa não é PAS e não consegue compreender o que está se passando, interpretando silêncio como um ato de violência, uma forma de agressão passiva. E bem pode ser que esteja certa, não é?

 

Mais sobre a agressão passiva

 

Pensando em minhas próprias reações e ouvindo alguns dos meus clientes chego à conclusão que não são poucas as pessoas altamente sensíveis que tem a tendência a utilizar essa estratégia como forma de lidar com o conflito. Porque? Em primeiro lugar porque, como disse no artigo anterior sobre empatia, não somos anjos. Podemos ter valores, sermos boas pessoas, ajudar sempre que possível e tudo o mais, porém somos humanos. E a vontade de “sair ganhando” ou de ferir de volta está tão presente em nós quanto nas outras pessoas.  E em segundo lugar, exatamente por conta da nossa dificuldade de lidar com conflito de forma aberta, expressando claramente as nossas divergências, optamos por fazê-lo de forma velada, escondendo a nossa raiva sobre a forma de silêncios cheios de recriminação e/ou em ataques sutis desfechados em doses homeopáticas, quando o outro menos espera.

 

Vários outros comportamentos relativamente comuns entre nós podem ser enquadrados nesta categoria, um deles é a já comentada vitimização:  quando após termos concordado com a vontade/desejo do outro, adotamos uma postura de mártir a fim de fazê-lo saber o tamanho do sofrimento que ele nos causou. Este comportamento costuma vir acompanhando de frases que visam incutir sentimentos de culpa, do tipo: “Não, não estou zangado/a, porque estaria? ” Ou “Faça como quiser, você sempre age assim mesmo…”  Sei que este não é um retrato bonito para se pintar. Mas se você tem (como eu tinha) a agressão passiva no seu repertório de estratégias para lidar com situações de conflito, por favor tente rever o seu comportamento. Esta é uma forma de conduta extremamente destrutiva que tende a causar danos profundos, e muitas vezes irreparáveis, nas relações.

resultado do conflito

Porque o conflito nos assusta tanto?

 

Esta é a pergunta chave. Penso que não existe uma resposta única, mas sim, uma conjunção de fatores que nos levam a encarar o conflito como algo extremamente perigoso. Um deles é nossa grande necessidade de agradar. A maioria de nós é, por assim dizer, “orientada para o outro”, sempre com as antenas ligadas em direção as outras pessoas e extraindo seu sentido de valor da aprovação alheia. O conflito passa a ser visto, então, como uma prova de que falhamos em agradar aquela pessoa, trazendo consigo a possibilidade da rejeição. Esse medo da rejeição está diretamente vinculado à baixa autoestima, comum em pessoas altamente sensíveis, que nos torna extremamente dependentes da aprovação alheia, já que esta funciona como um substituto do amor e aprovação que não nos sentimos capazes de prover a nós mesmos.

 

Duas das características centrais do traço – a intensa emocionalidade e a tendência a processar tudo com profundidade – também jogam um papel extremamente importante em nossa aversão ao conflito. Sabemos, por experiência própria, que não vamos esquecer facilmente uma cena de confrontação ou suas consequências. Não vamos superar rapidamente a perda de um amigo, a ruptura de uma relação de trabalho, ou pior ainda, uma ruptura afetiva. Simplesmente não conseguimos encarar rupturas com a mesma leveza que muitos não PAS. Somos cuidadosos com as relações porque elas são importantes para nós. Sentir e sentir com profundidade é parte vital daquilo que somos. E o conflito é, sobretudo, uma situação em que sentimentos intensos são expostos. Sem filtros. E isso nos assusta.  

 

Outro elemento a ser considerado é nossa empatia. Acostumados a compartilhar as emoções e estados de ânimo dos demais, adentramos numa situação de conflito sentindo tanto a nossa dor (ou raiva) quanto a da outra pessoa. Carregar tantas e tão conflitantes emoções resulta quase insuportável e, assim, abdicamos dos nossos desejos para não precisar lidar com a nossa dor agravada pela dor do outro e, ainda, pelo nosso sentimento de culpa por ser a causa da sua frustração.

 

Mas então? Como posso lidar com o conflito respeitando minha maneira de ser?

 

Fácil não é. Tentar encarar o conflito sendo uma PAS é como navegar entre Scylla e Charybdis, como diziam os antigos gregos. Mesmo assim, penso que alguns pontos podem nos ajudar a situarmo-nos melhor nesse turbilhão de emoções. O primeiro aspecto para o qual eu gostaria de chamar a atenção é o, já batido, tema da responsabilidade pessoal. Somos responsáveis por nós mesmos e pelo respeito aos nossos limites. Se outra pessoa os ultrapassa ou age de forma desconsiderada em relação a nós, isso ocorre porque estamos, de forma consciente ou não, dando-lhe a permissão para fazer isso. Assumir a responsabilidade pelas próprias escolhas é o melhor antidoto que conheço contra a vitimização. É também uma forma altamente eficaz de ampliar o seu poder pessoal. Afinal, quando reconheço o papel que desempenhei na criação de uma realidade que não me faz bem, também reconheço a minha capacidade de atuar de maneira diferente, fazendo escolhas diferentes, para começar a criar uma realidade distinta.

 

Outra coisa que considero importante ter em mente é o fato de que muitas vezes os conflitos são o produto de mal-entendidos gerados por interpretações equivocadas das intenções do outro. Nós PAS somos pródigos em atribuir significados ocultos a um simples gesto ou comentário, muito em função dos nossos próprios medos e inseguranças. Sobre isso vale a pena recordar o fato (um tanto quanto óbvio, mas frequentemente esquecido) que existe uma grande diferença de percepção entre uma pessoa que é altamente sensível e uma que não o é. E isto por si só pode ser uma fonte de conflitos e desentendimentos. E mais, vivendo num mundo onde somos minoria, creio que cabe a nós a responsabilidade de agir em consonância com esta diferença inata. Isso significa considerar, por exemplo, a possibilidade de que nossa sensibilidade nos leve a interpretar como ofensivo algo que os demais veem como banal.

 

Vale salientar ainda que a outra pessoa, mesmo que seja também uma PAS, não pode saber o que se passa em nosso interior. Da mesma maneira que nós, por mais intuitivos que sejamos, não podemos saber com absoluta certeza o que ela está pensando ou sentindo. Assim, vale o esforço de checar nossas percepções e interpretações sobre o comportamento do outro, assim como o de esclarecer nossas ações e motivações. No caso das PAS que se sentem bloqueadas em momentos de confronto pode ser importante explicar isso ao seu interlocutor, dizendo algo como “Desculpe, não tenho condições de responder agora. Preciso de um tempo antes de poder conversar sobre isso”.

 

Imagino que você pode estar pensando que agir assim reforça a ideia de que somos “débeis” e não conseguimos lidar com os problemas da vida como “todo mundo”.  Mas me deixe dizer duas coisas a esse respeito. A primeira, você já adivinhou, não é? Não, você não é como “todo mundo”, você é como é. E se você não é capaz de respeitar sua maneira de ser, terá muita dificuldade em obter este respeito por parte das outras pessoas. A outra coisa que eu gostaria de dizer é que silenciar diante do conflito tende a agravá-lo de muitas e variadas maneiras: seja fazendo com que a outra pessoa se sinta ignorada e desconsiderada, seja criando mágoas e ressentimentos, seja levando você a sentir-se uma pessoa falsa que não atua de forma honesta em suas relações. Em todas estas situações (e em outras possíveis) o resultado final do conflito negado e reprimido costuma ser o mesmo: o dano na relação e, por vezes, o afastamento entre os envolvidos. Ou seja, exatamente o resultado que a PAS queria tanto evitar.

 

Em minha experiência aprender a expressar minhas necessidades e a me posicionar, ainda que as vezes de maneira tímida, em situações de conflito trouxe dois grandes ganhos: por um lado passei a me respeitar mais e a me sentir mais forte, mais capaz de cuidar de mim mesma. E, por outro, descobri minhas relações, ou pelo menos aquelas que eu considero mais significativas, eram mais fortes do eu julgava e que podiam sobreviver a confrontos e divergências, saindo até mais fortalecidas de alguns desses episódios.

 

O tema do conflito é muito amplo e envolve vários aspectos que citei muito rapidamente neste artigo, tais como: empatia, saturação, autoestima, etc. Por isso mesmo pretendo voltar a ele em outra ocasião. No momento gostaria de lhe deixar duas sugestões. A primeira é o livro “Comunicação não violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais”, do dr. Marshall Rosenberg, que pode ser fornecer uma ajuda valiosa na tarefa de aprender a expressar seus sentimentos e necessidades de forma efetiva.  A segunda, para as PAS que sentem que precisam de alguém que as auxilie no processo de tornar-se mais confiante para atuar em situações de conflito, é o Programa Ame sua Sensibilidade, meu programa de coaching on line para pessoas altamente sensíveis.

 

Beijos e bênçãos,

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Sobre o autor
Rosalira Oliveira Sou coach com formação em coaching ontológico e especializada em alta sensibilidade. Fiz minha transição recentemente, quando encerrei meu ciclo como pesquisadora e doutora em antropologia cultural e tornei-me criadora do “Ame sua sensibilidade”, um programa de coaching destinado a ajudar as pessoas altamente sensíveis a compreender e integrar em essa sua característica, de modo a viver uma vida com mais felicidade e significado.

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