Alta Sensibilidade, Conflitos e Comunicação

Alta Sensibilidade, Conflitos e Comunicação

01/06/2019 artigos Rosalira Oliveira

Dizer que as pessoas altamente sensíveis não gostam de conflitos é, com certeza, suavizar muito a situação. A maioria de nós simplesmente odeia conflitos e tem verdadeiro horror às confrontações. Já expliquei algumas das razões pelas quais o conflito nos assusta tanto num artigo anterior que você pode ler aqui. Mas, o fato é que, por conta deste medo muitas PAS são capazes de fazer (quase) qualquer coisa para evitar o conflito: dizer sim a tudo; fazer coisas que não querem para agradar as outras pessoas; evitar dar a sua opinião para não aborrecer ninguém e até esconder sua verdadeira personalidade para não contrariar os demais… E assim, seguem pela vida “engolindo sapos” sempre em nome da paz e da harmonia.

 

O problema é que esta atitude faz com que a pessoa vá acumulando ressentimentos e que vá crescendo dentro dela aquela sensação de que todos se aproveitam de mim”, que “ninguém me trata com consideração”, etc. Isso lhe parece familiar?  Pois é, o fato é que o conflito faz parte da vida e, quando ficamos obcecados em evitá-lo, vamos acumulando cada vez mais raiva e ressentimento. Até que, com o passar do tempo, a pressão provocada por essas emoções reprimidas cresce até se tornar insustentável. E então, chega o momento em que a pessoa simplesmente não consegue mais conter seus sentimentos.

 

E, de repente, você explode. Buum!

 

Pois é. Um belo dia, aparentemente do nada, você explode. E você mesmo(a) se surpreende gritando, chorando ou brigando por algo que parece pequeno – ou mesmo insignificante – aos olhos dos demais. E então, para eles, parece que você é uma pessoa exagerada e dramática.  E nada poderia estar mais distante da realidade.  O que acaba de acontecer é que de tanto tentar reprimir seus sentimentos, você chegou ao seu limite e o resultado foi  uma crise que se traduziu em uma emocionalidade exagerada e fora de controle.

 

 

Existe também a possibilidade de que você continue por longo tempo reprimindo seus sentimentos e “se vingue” através da agressão passiva, ou mesmo, desenvolvendo uma doença. Como afirma Louise Hay, o ressentimento, abrigado por muito tempo, pode literalmente consumir nossas células, criando vários tipos de doenças. Quando não expressamos nossos sentimentos por medo do conflito o que fazemos é simplesmente interiorizar a raiva, a mágoa e nossa própria agressividade, criando as condições para que estas emoções se voltem contra nós, na forma de doenças físicas ou emocionais. Por isso é tão importante aprender a reconhecer o conflito e gerenciá-lo.

 

Dificuldades das PAS para lidar com conflitos

 

Para aprender a encarar o conflito de maneira saudável é importante ter em conta que a maneira como cada um de nós lida com desacordos depende de muitos  fatores, entre eles: a natureza do relacionamento com o parceiro de conflito; as competências pessoais; o nível da autoestima; a situação de vida atual, e por aí vai.  Entretanto é essencial destacar que a capacidade de se expressar assertivamente e gerenciar um conflito é uma habilidade que pode (e deve) ser aprendida. Nenhum de nós é refém de sua história pessoal, e nem mesmo, das características ligadas ao traço da alta sensibilidade.

 

Dito isto, vale à pena chamar a atenção para o fato de que as PAS costumam ter algumas dificuldades específicas na tarefa de aprender a lidar com conflitos. A primeira delas é nossa facilidade para criar cenários futuros nos quais tudo o que pode dar errado, dá errado. Por conta desta tendência, tendemos a não atuar no momento certo, escondendo nosso descontentamento por medo de que a consequência seja uma rejeição, ou mesmo, uma ruptura. Em consequência, os problemas se agravam e o conflito latente vai se tornando mais sério e potencialmente mais explosivo. É a tal da profecia que se autocumpre.

 

A segunda dificuldade está no fato de que muitas vezes assumimos como fatos suposições que não correspondem à realidade. Como a maioria dos altamente sensíveis é também bastante intuitiva – e, portanto, tende a estar mais voltada para o seu universo interior do que para o mundo externo – podemos ignorar os fatos e pularmos muito rapidamente para as conclusões, assumindo que nossas impressões correspondem à verdade. Com isso podemos achar “sabemos” tudo o que está acontecendo e, o que é mais grave, o que as outras pessoas estão sentindo ou pensando. Deixa eu te dar um exemplo: Imagine que seu colega não respondeu ao cumprimento que você lhe fez você ao chegar ao trabalho. De imediato, sua imaginação dispara: Será que ele está chateado com você? Será que você fez ou disse algo errado? Será que alguém falou mal de você para ele? Será, será, será … Entendeu?

 

Comunicação: a chave para gerir o conflito

 

Uma coisa importante a se levar em consideração é que boa parte dos conflitos nasce justamente de mal-entendidos, resultantes de interpretações subjetivas dos fatos, ou melhor dizendo, de opiniões que são assumidas como fatos. Por isso, a comunicação clara e assertiva constitui uma ferramenta poderosa para lidarmos, de forma saudável, com o conflito.

 

O primeiro passo consiste exatamente em checar as nossas percepções sobre a situação.  Para fazer isso você pode se perguntar:

 

Quais são os fatos aqui? O que eu realmente sei sobre esta situação? Em que informação estou me baseando para chegar a esta conclusão? Eu estou projetando meus medos/crenças nas atitudes das outras pessoas? Que parte de informação/interpretação estou assumindo como verdadeira sem base verificada? Me falta mais informação? Como poderei obtê-la? Tenho que pedir mais informação? A quem?

 

O outro lado da comunicação assertiva é a expressão clara dos nossos sentimentos e necessidades. E este é um aprendizado importante para as PAS que têm uma predisposição a se concentrarem nas necessidades alheias, ignorando as suas próprias. Por isso o primeiro passo é tornar-se consciente das próprias emoções. Para isto você pode usar o modelo PSNM, que é uma ferramenta útil para nos ajudar a desenvolver autoconsciência. O modelo nos ajudar a refletir sobre nosso posicionamento em uma determinada situação. Para isso, que busquemos identificar quais são nossos:

 

(P) Pensamentos; (S) Sentimentos; (N) Necessidades e (M) Medos

 

Por fim uma comunicação construtiva também exige um ambiente no qual as partes sintam que podem se expressar e serem realmente ouvidas, Para isso, apresento algumas das propostas do dr. Ted Zeff para resolução de conflitos para PAS. A sugestão do próprio dr. Zeff é que você anote as técnicas que intuitivamente sinta que mais irão lhe ajudar e comece a aplicá-las para diminuir a tensão nas suas relações e  criar mais harmônio na sua vida.

 

Técnicas de Gerenciamento  de conflitos para PAS

 

  1. A primeira sugestão do Zeff é o Programa de meditação de uma vez na semana, pode ser muito útil para aquelas situações onde duas pessoas discutem constantemente, sem conseguir avançar em direção a um acordo.  A recomendação aqui e que as partes estabeleçam um momento específico durante a semana para discutir o assunto. Durante a semana cada um pode anotar os seus sentimentos e sua interpretação da situação. O acordo de não repisar o assunto constantemente, acompanhado da autorreflexão provocada pelo ato de escrever, pode aliviar a tensão e contribuir para que se encontrem soluções compartilhadas para os problemas.
  2. Outra ferramenta é a “Pausa de 05 segundos, uma técnica para limitar o efeito hiperestimulante de uma discussão. Nesta estratégia, as pessoas envolvidas  concordam em fazer uma pausa de 05 segundos antes de responder ou contra- argumentar. Se desejar você pode explicar a outra pessoa que precisa de um tempo antes de responder e solicitar ao outro que experimente fazer o mesmo.  Esta é a pausa que revitaliza as PAS permitindo-lhes administrar a hiperexcitação e escolher como responder.  
  3. A estratégia seguinte, a “Desculpa do 1%” é mais profunda e exige que saiamos da posição de ataque e defesa para buscar compreender o ponto de vista do outro. Sabemos que em todo conflito há sempre duas versões da mesma história. Sendo assim, reconheça e assuma a sua parcela de responsabilidade no desentendimento – mesmo que você acredite que seja de apenas 1% – e se desculpe. A sua expressão de arrependimento dará à outra pessoa a chance de se abrir e se desculpar também pela parte que lhe cabe no problema. A partir desta base torna-se mais fácil buscar soluções. Mesmo que você se desculpe e a outra a outra parte não o faca, o fato de assumir a responsabilidade por suas ações e a certeza de ter atuado para superar o conflito lhe deixará mais leve e lhe trará paz mental.
  4. A última das sugestões que eu queria apresentar chama-se “O silêncio é de ouro e falar desgasta o metal”. A intenção aqui é nos lembrarmos da importância de controlar o falatório constante que, por vezes, nos leva a nos envolvermos em discussões e polêmicas com pouco – ou nenhum – sentido.  Mais ainda, falar em excesso pode sobrecarregar o seu sistema nervoso, principalmente se você está sempre defendendo sua opinião ou criticando a da outra pessoa. Esta atitude também tende a facilitar o surgimento de mal-entendidos, aumentando a  possibilidade de conflitos e mal-estar. Portanto, escolha suas palavras com cuidado e evite cair na armadilha da sobressaturação de estímulos.
  5. E por fim algo que é menos uma técnica e mais um conselho: Quando estiver diante de uma situação que lhe incomoda, fale! E fale na hora em que sentir o desconforto! Talvez você precise de um tempo para organizar suas ideias e argumentos, mas não deixe passar tempo em demasia, a não ser que tenham combinado a técnica da meditação uma vez por semana. Nas outras situações, fale. Não espere que sua raiva cresça, enquanto você remõe o assunto vezes sem conta na sua cabeça.  Lembre-se que, devido à diferença de sensibilidade, a outra pessoa pode nem estar consciente do seu desconforto. Reprimir seus sentimentos só vai fazer com que seu desagrado aumente até levá-lo(a) a uma reação desproporcional e exagerada.

 

Estas são algumas das técnicas que podem nos ajudar a gestionar os conflitos à maneira PAS. Como venho fazendo nos últimos artigos do blog, vou deixar mais uma ferramenta de apoio disponível para você neste link:

 

Modelo THINK

 

Entretanto, é importante ter clareza de que nenhuma técnica é capaz de evitar que ocorram situações de conflito em nossa vida. Permanecer aberto ao conflito é um desafio que exige coragem para aceitar e assumir a nossa vulnerabilidade. Pensando nisso gostaria de encerrar partilhando com você este maravilhoso vídeo da Brené Brown sobre o poder que aceitar a vulnerabilidade pode trazer à nossa vida.

 

O Poder da Vulnerabilidade

 

Beijos e bênçãos e até o próximo mês.

 

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Sobre o autor
Rosalira Oliveira Sou coach com formação em coaching ontológico e especializada em alta sensibilidade. Fiz minha transição recentemente, quando encerrei meu ciclo como pesquisadora e doutora em antropologia cultural e tornei-me criadora do “Ame sua sensibilidade”, um programa de coaching destinado a ajudar as pessoas altamente sensíveis a compreender e integrar em essa sua característica, de modo a viver uma vida com mais felicidade e significado.

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