Você acha que pode ser uma pessoa altamente sensível e quer saber mais sobre o assunto?…
Alta sensibilidade e intensidade: a vida em alta definição

Hoje queria falar com você de algo que provavelmente já ouviu muito por aí: as pessoas com alta sensibilidade são muito intensas. Talvez você mesmo(a) já tenha ouvido a clássica frase: “você é sensível demais, leva tudo muito a sério”.
E, embora esta frase seja dita como uma crítica, a verdade é que, sim, a intensidade emocional é uma das quatro características que definem o traço da alta sensibilidade. Mas a intensidade experimentada pelas pessoas altamente sensíveis não se resume às emoções. Ela também pode estar presente na maneira como percebemos e processamos a experiência.
Pessoas altamente sensíveis podem perceber de forma mais intensa o ambiente ao seu redor. Ruídos altos, luz forte, odores intensos ou situações sociais caóticas podem desencadear reações mais rápidas e profundas.
Quando perguntei aos leitores da minha Newsletter em que situações percebiam esta intensidade na sua experiência, uma pessoa respondeu:
“Respondendo sua pergunta, tenho muita dificuldade com os supermercados, muita dificuldade mesmo. Durante muitos anos eu mesma não entendia por que era tão sofrido para mim ir ao supermercado, mas hoje entendo que se trata dos excessos de estímulos. Os cheiros, as luzes, as músicas que tocam, as pessoas... tudo incomoda. As pessoas não entendem essa minha dificuldade, mas hoje eu entendo.”
Como esta leitora nos mostra, a intensidade da percepção pode fazer com que um ambiente hiperestimulante seja especialmente desgastante, produzindo sobrecarga e exaustão. Mas a intensidade não está apenas na percepção do ambiente. E não é apenas uma questão de quantidade de estímulos: pessoas altamente sensíveis também costumam perceber nuances que podem passar despercebidas para outras pessoas — uma pequena mudança no tom de voz, uma expressão facial, um silêncio diferente, uma alteração no clima de uma conversa.
Mas há um aspecto importante aqui: não se trata apenas de perceber mais informações. Trata-se também da maneira como essas informações são processadas. Aquilo que percebemos tende a ser elaborado com muita profundidade. Nós frequentemente relacionamos uma informação a outra, buscamos significados, consideramos diferentes possibilidades, antecipamos consequências. E continuamos pensando, analisando e processando uma conversa ou experiência muito tempo depois dela ter terminado
Um leitor descreveu bem esta experiência:
“A experiência mais concreta de ‘intensidade como desafio’ que vivi recentemente foi justamente durante as provas de uma certificação profissional que venho fazendo. A primeira tentativa não teve sucesso, (...) e uma questão errada na prova continuava ‘ecoando’ na minha cabeça horas depois, exatamente como você descreve a música ou a conversa que não sai da nossa mente.”
É por isso que talvez seja mais adequado pensar a intensidade da alta sensibilidade não apenas como intensidade emocional, mas como uma intensidade da experiência: sensorial, cognitiva e emocional.
É aquilo que eu chamo de “viver em alta definição”.
Alta sensibilidade e intensidade: nem sempre um problema

É muito importante entender que a mesma intensidade que, por vezes, nos sobrecarrega também pode ampliar a nossa capacidade de desfrutar de uma experiência positiva. Uma música pode não apenas ser ouvida, mas profundamente sentida. O canto de um pássaro pode nos emocionar. Uma paisagem pode nos deter. Um detalhe aparentemente banal pode despertar associações, lembranças e emoções.
E existe algo aparentemente contraditório: esta intensidade pode produzir experiências muito diferentes, mesmo que relacionadas ao mesmo ambiente. Uma pessoa altamente sensível, pode, por exemplo, sentir uma grande comoção ao participar de um show e, ao mesmo tempo, ter a necessidade de sair daquele espaço após algum tempo por conta do volume do som, da luz, da aglomeração de pessoas ou de outros estímulos que o seu sistema nervoso percebe como excessivos.
Isso nos ajuda a compreender que a intensidade, por si só, não é o problema. Ela é apenas uma qualidade da maneira como experimentamos o mundo. Portanto,
- Perceber intensamente não é um problema.
- Processar intensamente não é um problema.
- Sentir intensamente não é um problema.
Tudo isto passa a ser um problema quando nos sentimos capturados pela intensidade da experiência: quando um estímulo ocupa espaço demais, quando uma emoção nos arrasta, quando um pensamento continua reverberando sem levar a lugar nenhum ou quando não conseguimos interromper o processamento, mesmo precisando descansar.
Nestes momentos a intensidade começa a organizar a nossa experiência e a reduzir a nossa capacidade de escolher como queremos responder.
É aí que entra a modulação.
Modular não é sentir menos
Modular não significa necessariamente reduzir a intensidade.
Significa conseguir permanecer consigo mesmo em meio à intensidade, criando espaço para reconhecer o que está acontecendo dentro de nós, perceber o que precisamos e decidir como queremos responder.
Na prática, isso pode significar muitas coisas diferentes.
Quando o ambiente fica intenso demais,
Você está em uma festa. Gosta das pessoas, da música e gostaria de permanecer ali. Mas começa a perceber que o volume das conversas, as luzes e a quantidade de estímulos estão ocupando espaço demais.
Uma resposta automática poderia ser permanecer até chegar à exaustão — ou sair abruptamente quando já não suporta mais.

Modular começa antes. Começa por prestar atenção a si mesmo e perceber antes de chegar à exaustão. A partir daí, recuperamos possibilidades de escolha: sair por alguns minutos, procurar um lugar mais tranquilo, decidir ir embora ou permanecer, ainda que sabendo que haverá um custo energético.
Uma das minhas leitoras descreveu assim:
“Percebo que a modulação ou administração da intensidade de como me sinto ou percebo informações, imagens, sons, músicas contribui para eu manter meu centro, foco em mim. Participando da experiência, consciente de estar a observar, sem propriamente assimilar como emoções que me dizem respeito/próprias.”
A questão central não é, portanto, eliminar a intensidade. É deixar de ser conduzido por ela. Isto também se aplica à maneira como percebemos as emoções das outras pessoas.
Quando percebemos intensamente a emoção do outro
Você percebe que alguém está angustiado. Uma mudança no tom de voz, uma expressão diferente… alguma coisa lhe diz imediatamente que aquela pessoa não está bem. E talvez sua própria resposta emocional apareça automaticamente: preocupação, ansiedade e urgência em ajudar ou resolver.
Modular aqui pode significar reconhecer a intensidade desta empatia antes de transformá-la em ação. Como se você parasse e dissesse a si mesmo: “ok, eu percebo que esta pessoa está sofrendo. Mas o que eu quero fazer com esta minha percepção?”
A mesma leitora escreve:
“Situações dolorosas que envolvem outros seres vivos me desafiam. Ainda me custa resolver o quanto participar, em termos práticos, de quanto auxiliar a outrem. Um processo mesmo. Preciso sim, de um ‘distanciamento emocional’ da situação para melhor decidir, me organizando internamente ou reorganizando.”
A partir desta pausa você recupera a sua liberdade e pode escolher sua resposta. Talvez você decida ajudar. Talvez apenas escutar. Talvez perceba que, naquele momento, não tem condições de ajudar de nenhuma maneira. E isto é legítimo. O importante aqui é perceber o processo: A percepção permanece. A empatia permanece. O que deixa de permanecer é o automatismo da resposta.
E há ainda outra dificuldade: perceber intensamente não significa, necessariamente, interpretar corretamente. Podemos captar muitos detalhes e, ainda assim, atribuir a eles um significado que não corresponde ao que está acontecendo.
Uma leitora escreveu:
“Em conversas com pequenos grupos, consigo ter uma percepção de detalhes que talvez outras pessoas nem percebam(...) Acontece que estou quase sempre primeiro respondendo à pergunta: Será que isso foi para mim ou sobre mim? Então percebo com frequência uma tendência de personalizar falas que não só me deixam em alerta, mas me questiono talvez por estar correndo o risco de não estar me percebendo.”
Aqui, modular também significa criar um espaço entre aquilo que percebemos, aquilo que interpretamos e aquilo que decidimos fazer a partir disso.
Quando uma experiência continua reverberando
Isto vale também para o processamento que continua muito depois que uma experiência terminou. Aquela conversa pode ter acabado há horas e, ainda assim, continuar presente em sua cabeça. Você se pega vezes sem conta repassando uma frase, imaginando o que poderia ter respondido, tentando compreender a reação da outra pessoa, criando interpretações…
O processamento profundo é parte da alta sensibilidade. Por isso, dizer simplesmente “pare de pensar nisso” dificilmente ajuda. Por isto, neste caso, modular pode significar fazer a si mesmo uma pergunta importante:
- “Eu ainda estou elaborando algo importante ou apenas tentando controlar esta experiência?”

Porque uma coisa é aprender à partir de uma experiência negativa, outra é remoê-la na esperança de “mudar o que aconteceu” e construir uma interpretação diferente. Se você avalia que ainda há algo a compreender, faz sentido dar mais espaço para este processamento. Porém, se percebe que está apenas percorrendo repetidamente os mesmos caminhos, pode escolher conscientemente interrompê-lo e direcionar a atenção para outra coisa. Foi o que fez o leitor que estava remoendo a resposta errada na sua prova para a certificação:
“A primeira tentativa não teve sucesso, mas o processo — estudar, errar, entender o próprio erro, tentar de novo — acabou funcionando como uma espécie de treino de equilíbrio entre o emocional e o intelectual. Aprendi a não deixar a intensidade da frustração de errar contaminar a próxima tentativa, e isso hoje eu carrego pra outras áreas da vida”.
Novamente, não se trata de proibir o pensamento. Trata-se de recuperar o poder de escolha sobre ele.
Entre afastar-se e perder-se
É justamente o processo de recuperação da nossa capacidade de escolha que permite compreender aquilo que eu chamo de autoria.
Diante da força das experiências intensas, nos, altamente sensíveis, podemos tender a duas respostas automáticas.
Uma é afastar-se da experiência: nos isolarmos, reduzir o contato e tentar “desligar” aquilo que sentimos.
A outra é perder-se dentro dela: quando a intensidade do ambiente, das emoções ou das necessidades das outras pessoas ocupa tanto espaço que deixamos de perceber como estamos, do que precisamos ou até mesmo o que estamos sentindo.
Uma leitora descreveu bem este dilema:
“Gastamos energia tanto para nos ajustar aos outros quanto para ajustar à nossa necessidade quando não estamos em nosso habitat. (...) Isso nos deixa em uma bifurcação, pois, por exemplo, não sei o que exige mais da gente, se é trabalhar com várias pessoas ou se é trabalhar com uma pessoa, pois você é a única no ambiente para suprir as necessidades da outra pessoa de falar, conversar, etc.”
Este depoimento mostra bem que a modulação não diz respeito apenas a afastar-nos de estímulos fortes ou de administrar nossas emoções e pensamentos. Por vezes envolve encontrar nossa maneira de estar presentes nas relações (profissionais, familiares, conjugais, etc.) sem abandonar nossas próprias necessidades para satisfazer as dos demais.
Acredito, de verdade, que nosso objetivo não deveria ser o de aprender a viver com menos intensidade. Para mim, o desafio é outro: desenvolver a capacidade de permanecer conosco em meio à intensidade.
Uma outra relação com a intensidade
É perceber quando queremos nos afastar e quando queremos permanecer.
Quando precisamos interromper um processamento e quando ainda precisamos de tempo para elaborar uma experiência.
Quando queremos responder imediatamente àquilo que sentimos e quando precisamos esperar.
A modulação cria esse espaço entre a intensidade da experiência e nossa resposta. E é nesse espaço que começa a escolha. E é na recuperação da capacidade de escolha que começa a autoria. A afirmação do nosso direito de participar conscientemente da criação da nossa própria vida, de acordo com aquilo que percebemos, pensamos e sentimos.
A intensidade permanece.
O que muda é nossa relação com ela.
E, através disto, podemos aprender a permanecer em contato com o mundo sem perder o contato conosco.






Oi Franci,
É isto mesmo querida. O mais importante é aprendermos a validar nossas percepções e sentimentos. E, na medida do possível, respeitar que os demais tenham dificuldade em entender uma vivência tão diferente da deles. Um beijo grande
Muito espelha uma realidade que só passei a entender após me reconhecer como uma PAS. Recordo sempre de alguém que tentava me diminuir dizendo: – Todo mundo sente, todo mundo sofre, a sua dor, Franci, não é maior do que a dos outros, não! Eu me sentia horrível por tantas coisas que sentia e os abalos físicos e psiquícos em profusão, a intensidade tão profunda eu só não sabia o porquê. Agora sei. Estou me cuidando melhor. Gratidão à Professora Rosalira e quem compartilha as experiências vividas.