As PAS e o Trabalho: Resultados de Pesquisa #2

As PAS e o Trabalho: Resultados de Pesquisa #2

04/05/2018 artigos Rosalira Oliveira

as PAS e o Trabalho4Na primeira parte da análise dos resultados da Pesquisa Internacional sobre as  Pessoas Altamente Sensíveis e o Trabalho, vimos como é importante para uma PAS ter um trabalho com significado em um lugar com pouco ruído e um bom ambiente. Nesta segunda parte trataremos das condições de trabalho que são consideradas ideais e daquelas que podem ser danosas não somente para o nosso desempenho profissional, como também, para a nossa saúde física e mental.

 

 

Como seria um ambiente de trabalho ideal para uma PAS? 

Uma boa percepção do quanto o modo de trabalho predominante em nossa sociedade é esgotador para as PAS é dada pela resposta à pergunta sobre quantas horas de trabalho seria considerado ideal para os entrevistados. Para a maioria (36%) este ideal reside numa jornada de trabalho entre 24 e 32 horas semanais. Sendo o segundo maior percentual (26%) indicado por aqueles que consideram que 16 a 24 horas de trabalho por semana seriam o ideal em termos de carga horária laboral.

 

As duas questões seguintes também tratam do modelo ideal de organização do trabalho para as PAS e nos ajudam a compreender melhor as suas aspirações, expressas tanto nos números, como também nos comentários adicionados por alguns dos respondentes. Vejamo-las:  A primeira pergunta relativa a este tema é qual o tipo de gerenciamento que contribuiria para otimizar o seu trabalho. A resposta indicada pela maioria dos participantes remeteu, mais uma vez à questão da comunicação. O item “instruções claras” teve 78% das escolhas, ficando à frente mesmo do “salário justo” que obteve 76%.  “Sentir-se compreendido” e “horários de trabalho flexíveis” vêm logo em seguida (ambas com 73% de escolhas), enquanto liderança inspiradora fecha o ranking das opções mais votadas com um percentual de 70%.

 

A primeira coisa que chama a atenção nesses números é a persistência da preocupação com a clareza na comunicação, o que pode indicar a dificuldade que sente uma pessoa altamente sensível, que por natureza é perfeccionista e desejosa de fazer um bom trabalho, quando precisa trabalhar com alguém cuja expectativas não estão definidas claramente.  Some-se a isso, a tendência PAS de refletir com profundidade sobre a tarefa e planejar a melhor maneira de executá-la. Esforço que pode se revelar inútil se os resultados esperados não são adequadamente pactuados.

 

Se adicionarmos à esta demanda por clareza na atribuição das tarefas, os outros itens mais citados – sentir-se compreendido, ter flexibilidade de horários e uma liderança inspiradora – temos como modelo ideal, um ambiente de trabalho focado em resultados (bem estabelecidos) no qual o empregado desfruta de uma relativa autonomia e se sente apoiado por uma liderança compreensiva e inspiradora, num ambiente mais igualitário e menos hierárquico.  Mais ou menos o que indicam estes depoimentos:

  • “Clareza de comunicação faz toda a diferença, além de cuidado no gerenciamento das tarefas principalmente quando se é líder. Além de confiança nas habilidades da equipe e feedback.”
  • “Ambiente menos competitivo; hierarquia e mais horizontalidade.”
  • “Planejamento das atividades/ações/capacitações com metodologia de Rodas de conversa,  realizadas periodicamente”

 

Antes de encerrar a análise sobre esta pergunta, considero importante chamar a atenção para dois aspectos que merecem destaque em nossa leitura:

 

Salário justo ao invés de salário altosalário justo foi escolhido por 222 participantes, enquanto a opção salário alto foi marcada por apenas 66 participantes. Este é um bom indicativo da relação das PAS com o trabalho/carreira. Trata-se aqui de receber uma remuneração avaliada, de acordo com os seus valores, como merecida em função de um trabalho bem feito e não de receber o máximo de dinheiro possível, independente da natureza da sua contribuição.

 

Relações cooperativas ao invés de competitivas:  O outro aspecto do trabalho ideal é, é claro, a convivência e a cooperação com os colegas de trabalho. Se contrastarmos as respostas mais citadas – “ajuda mútua em caso de necessidade” (68%), “confiança mútua” (63%) e “sentir-me compreendido (a)” (60%) – com aquelas menos votadas – “fazer pausas juntos para almoço, cafezinho, etc.” (26%) ”trabalhar em equipe para executar tarefas”(20%) e  “excursões/saídas regulares em grupo” (11%), veremos como as PAS priorizam relacionamentos profundos e significativos, não estando particularmente interessadas nos contatos superficiais que constituem a regra nos ambientes de trabalho. Também parece não haver muito interesse em contatos sociais tipicamente instrumentais, já que mais da metade dos respondentes (58%) declararam que preferem “executar sozinhos suas tarefas”.

 

É claro que estas respostas estão também relacionadas à presença significativa (62%) de introvertidos em nossa amostra, mas considerando que este número ainda está abaixo do percentual atribuído pela dra. Elaine Aron, que afirma que cerca de 70% das PAS são introvertidas, podemos considerar que elas traduzem uma atitude predominante entre os altamente sensíveis. Enfim, tudo parece indicar que as PAS tendem a desejar uma convivência marcada pela cortesia, mas distanciada. A não ser nos casos em que lhes é possível estabelecer uma conexão mais profunda com os colegas de trabalho.

 

O quê as PAS trazem à mesa

Por outro lado, embora de modo geral se recusem a fazer autopropaganda, as PAS, parecem ter uma visão muito clara do seu valor pessoal e da contribuição que aportam ao seu ambiente de trabalho.   Em resposta à pergunta sobre seus pontos fortes no trabalho, as respostas mais votadas foram: “senso de responsabilidade” (82%), empatia” (78%), “ser bom ouvinte” (73%), “forte intuição e “mente aberta” (ambas com 68%), além de pensamento criativo” e atenção aos detalhes, ambas com 67% de escolha.

 

O traço como um fardo ou uma dádiva

Em franco contraste com esta percepção das suas qualidades/talentos, quando perguntados sobre até que ponto consideram a alta sensibilidade como um ativo na sua carreira/trabalho, os participantes da pesquisa foram bastante reticentes. A média das respostas atribuiu um valor 6,5, numa escala de 01 a 10, ao traço da alta sensibilidade enquanto um ativo na sua vida profissional. A explicação para essa aparente divergência tanto pode estar na possibilidade de que os aspectos difíceis do traço sejam mais notados pelos participantes quanto, e esta hipótese nos parece mais provável, no fato de que, devido ao ainda pequeno conhecimento sobre a alta sensibilidade no Brasil e nos países de língua portuguesa, muitos dos participantes não identificam seus pontos fortes como características ligadas ao traço. Vale recordar que um número bastante alto de entrevistados (42%) não tinha certeza de ser uma PAS. Este dado nos leva a presumir que, menos do que desconforto com a sua sensibilidade, o valor citado traduz um desconhecimento da relação entre suas qualidades e o traço de personalidade em questão.

 

Esta hipótese encontra apoio na resposta à pergunta seguinte: até que ponto os participantes consideram a alta sensibilidade como um fardo. E aqui chegamos a um número muito aproximado ao da questão anterior (6,0 numa escala de 01 a 10), o que parece indicar que os participantes da pesquisa avaliam o impacto da sua sensibilidade no trabalho de forma neutra. Como dissemos antes uma das explicações possíveis seria o pouco conhecimento sobre a maneira como o traço influencia na sua personalidade, comportamento e aspirações em termos profissionais. Desconhecimento este que, esperamos, que a própria divulgação dos resultados desta pesquisa contribua para diminuir.

 

Perigo das 9 às 6

Sobre um dos maiores perigos em ser uma PAS e lidar com os ambientes profissionais contemporâneos: o esgotamento e o burnout, um alarmante total de 75% dos participantes da Pesquisa declararam terem tido, ou estarem tendo no momento, um episódio de burnout. Um dado que é ainda mais significativo se considerarmos que muitos destes mesmos participantes (27%) se identificaram como estudantes e que um número semelhante (26%) se encontra na faixa etária que vai dos 18 aos 25 anos, sendo, portanto, pessoas que estão se iniciando na vida profissional.PAS e Trabalho6

 

Entre os participantes que declararam já terem tido episódios de burnout indicaram os seguintes fatores como os principais indutores desta condição: “carga de trabalho exaustiva” (68%); “falta de apoio no trabalho” (64%); “personalidade” (54%); tédio no trabalho (41%)” e “falta de apoio em casa” (40%).

 

Este conjunto de respostas nos dá um quadro bastante aproximado do risco que as PAS correm quando não conseguem se defender das exigências desmedidas dos ambientes laborais contemporâneos. A carga de trabalho de 08 horas semanais (que muitas vezes é extrapolada) é claramente esgotadora para quem absorve tantos estímulos/informações ao longo do dia. A falta de apoio e o tédio no trabalho muito provavelmente traduzem temas já trabalhados por nós nesse texto: como a falta de instruções claras, a hierarquia que tolhe a criatividade e a falta de autonomia no desempenho das tarefas, por exemplo. E, por fim o item “personalidade” nos parece importante porque aponta para um reconhecimento, ainda pequeno, do peso que o traço de personalidade joga na nossa vulnerabilidade ao estresse e, consequentemente, ao esgotamento físico e mental. Vejamos alguns depoimentos que ilustram esses temas:

 

  • “Muitas coisas ocorrendo, prazos, pressões.”
  • “Impossível acompanhar tal ritmo de tarefas em tão pouco tempo”
  • “Trabalhar na área da saúde pública é exaustivo, independente da carga horaria”.
  • “Poucos funcionários, grande demanda, sem pausas para descanso, sem horário de saída”
  • “Colegas desrespeitosos, falta de reconhecimento, pressão, tarefas mal executadas por colegas, falta de clareza nas tarefas”
  • “Tinha muitas turmas para dar aula e sempre era exigido muito, além do normal”.
  • “Descobri que trabalhar me sentindo útil e vendo sentido no que eu faço faz uma diferença enorme na minha vida. Acredito que isso tenha a ver com a minha personalidade. Mas não sei descreve-la…”
  • “Excesso de auto exigência… queria dar conta de diversas atividades ao mesmo tempo. Eram muitos estímulos”

 

Como se vê há um claro descompasso entre as exigências a que estamos submetidos e nosso ritmo e maneira de trabalhar, o que gera estresse e ansiedade culminando nos episódios de burnout. Um possível agravante para esta situação é a tendência PAS a “aguentarem enquanto podem” tentando fazer jus a estas exigências mesmo às custas de sua saúde física e mental.   Quando perguntados sobre se acreditam que tiram mais licenças médicas do que os demais colegas, a maioria dos entrevistados (57%) respondeu que acredita que tira menos licença do que os colegas. Um número que, se compararmos com o daqueles que passaram ou estão passando por um episódio de esgotamento ou burnout, aponta para esta tendência a aguentar o máximo possível, mesmo em uma situação potencialmente perigosa.

 

Com base nestes dados, podemos concluir o nosso “retrato” da pessoa altamente sensível no trabalho dizendo que para sentir-se realizada em seu trabalho uma PAS necessita enxergar sentido naquilo que faz; ter a oportunidade de utilizar todo o seu potencial (seus muitos talentos e capacidades) e gozar de uma relativa autonomia na execução de suas tarefas, ao invés de apenas cumprir ordens de maneira mecânica. Em troca, os altamente sensíveis aportam aos espaços profissionais qualidades como, versatilidade, criatividade, responsabilidade, flexibilidade e sua capacidade para enxergar mais além do imediato percebendo as possíveis consequências de cada decisão. Estas são qualidades valiosas das quais os ambientes de trabalho do século XXI não podem (ou não devem) prescindir.

 

Muito obrigada a todos os que contribuíram com a nossa Pesquisa. Eu espero que estes resultados ajudem você (e a mim) a construir locais de trabalho onde possamos genuinamente atualizar os nossos talentos e contribuirmos para uma sociedade melhor.

 

Beijos e bênçãos e até o próximo artigo.

 

 

 

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Sobre o autor
Rosalira Oliveira Sou coach com formação em coaching ontológico e especializada em alta sensibilidade. Fiz minha transição recentemente, quando encerrei meu ciclo como pesquisadora e doutora em antropologia cultural e tornei-me criadora do “Ame sua sensibilidade”, um programa de coaching destinado a ajudar as pessoas altamente sensíveis a compreender e integrar em essa sua característica, de modo a viver uma vida com mais felicidade e significado.

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