Altamente sensível e a solidão de fim de ano

Altamente sensível e a solidão de fim de ano

29/11/2018 artigos Rosalira Oliveira

mulher solidão fim de anoPois é estamos novamente na época das festas de fim de ano: as ruas estão enfeitadas, as vitrines cheias de sugestões de presentes, os supermercados repletos de todo tipo de opções para a Ceia de Natal… Além disso, a mídia nos bombardeia com imagens do Natal ideal: todos bem-vestidos, brindando com a família diante de uma mesa farta, tendo ao fundo uma árvore cheia de presentes. E, embora a propaganda insista em apresentar esta imagem de grandes famílias reunidas – desde o netinho até o avô e o cachorro – como sendo o suprassumo da felicidade, o fato é que para muitos de nós a realidade é bem diferente desta imagem idealizada.

 

Para começar nem todas as pessoas têm família (ou a têm por perto). Existem pais e mães solteiros, imigrantes de todos os tipos, pessoas vivendo em abrigos ou mesmo em situação de rua, e por aí vai.  Há também o fato de que, apesar do esforço da publicidade em nos vender esta maneira como sendo a única adequada de comemorar as festas, a verdade é que nem todo mundo deseja passar a noite de Natal em companhia da família e isto é algo legítimo. Por fim é preciso reconhecer que, com ou sem família, esta pode ser época mais difícil e solitária do ano para algumas pessoas.

 

Não me entenda mal, não quero ser negativa e nem dizer que a convivência familiar não seja uma coisa boa. O que desejo ressaltar é que esta imagem tão enfatizada pela propaganda não passa de um clichê, que provavelmente faz mais mal do que bem, ao criar um padrão ao qual todos devemos nos enquadrar. Se pararmos para pensar veremos que por trás do colorido e da aparente alegria desta época, há um roteiro preestabelecido que grande parte das pessoas segue sem questionar: Natal se festeja em família com a distribuição de presentes e as ceias obrigatórias; Fim de ano se comemora com os amigos vestidos de branco e, de preferência, na praia. Antes disso há as, também roteirizadas, confraternizações nos bares e restaurantes com os amigos e colegas de trabalho.

 

Em todas estas ocasiões a regra é “desfrutar” e a alegria se torna mais uma obrigação social, juntamente com a injunção de distribuir presentes e sorrisos a pessoas com as quais, de verdade, não nos damos bem. Nada disso encaixa muito bem com as pessoas com alta sensibilidade, e menos ainda com aqueles 70% de nós que são, também, introvertidos.  E aí surgem as inquietações que nos levam à sensação de estranhamento e solidão que muitos sentimos nesta época do ano.

 

O que nos leva a nos sentirmos assim?

 

Para começar, tendemos a nos sentir incomodados pelo aspecto comercial de tudo isto. Como pensadores profundos que somos não conseguimos nos afinar muito bem com o consumismo e a superficialidade, cada vez mais associados a este período do ano. Muitos de nós sentem um desejo, quase uma nostalgia, de algo diferente, mais relacionado com os nossos valores. E as festas de fim de ano, como são vividas em nossa sociedade, definitivamente não satisfazem a este nosso anseio, deixando-nos com a sensação de que algo está “faltando”.

 

Junte-se a isso os excessos que caracterizam esta época: Excesso de estímulos (luzes, música, pessoas, vitrines, enfeites, etc.,). Excesso de interação social (confraternizações, amigos secretos e sabe-se lá mais o quê). Excesso de atividades para dar conta das nossas responsabilidades cotidianas mais a compra de presentes e a participação em todas as festas e reuniões. Todo este excesso não apenas nos deixa profundamente estressados como também com um sentimento de estar “na contramão”, já que todos os demais parecem estar desfrutando de toda essa agitação.

 

O outro aspecto difícil para muitas PAS é a convivência com a família. Penso que não me engano muito ao dizer que a maioria de nós cresceu com a sensação de não se encaixar na família de origem.  Em muitos casos este sentimento de desconexão tende a se agravar com o tempo, de modo que a reunião com os parentes na noite de Natal pode ser um momento bastante delicado e difícil. Não é de admirar que neste momento os problemas com a família – especialmente com os pais– representem um peso demasiado.  Agravado pela obrigação (de novo esta palavra) de comportar-se como um bom filho(a), de acordo com os padrões deles. Alguns depoimentos extraídos de grupos e fóruns de PAS, dentro e fora do Brasil, nos dão uma ideia  aproximada desta dificuldade:

 

 “Tenho que ir à Ceia de Natal da família. Eles dizem que nos amamos muito, mas à mesa não fazem nada além de criticar e insultar. E nem quero falar das piadas grosseiras e machistas…” (Espanha)

 

“Final de ano chegando e já começa o pavor das festas de Natal e ano novo. Por mim, me enfiava num buraco e só saía dia 02/01/2019”. (Brasil)

 

“É triste ler que tantos de vocês têm receio do Natal. Mas, eu não sou diferente. Fico apenas algumas horas na véspera de Natal, mas infelizmente isso ainda é tempo mais do que suficiente para meus pais me envenenarem completamente.” (Alemanha)

 

Sempre foi assim e tenho a impressão de que piora a cada ano (ou fico cada vez mais sensível). Duas vezes eu fui mais cedo. Vou fazer isso novamente este ano. Se ficar muito difícil para mim, levanto-me e saio.” (Alemanha)

 

“Sinto falta da minha família, mas me dei conta que não é tanto deles, pessoalmente, que sinto falta, mas antes de uma sensação de sentir-me querida incondicionalmente, acolhida. Algo que nunca recebi deles.” (Espanha)

 

Como é possível sentir solidão quando estamos acompanhados?

 

Infelizmente o fato de ser altamente sensível nos leva com frequência a sentimentos de solidão, ocasionados apenas por sermos quem nós somos. Uma vez que percebemos e experimentamos o mundo e os sentimentos de maneira diferente, muitas vezes estamos em desvantagem em termos dos relacionamentos. E nem sempre conseguimos encontrar um terreno comum que nos faça sentirmo-nos compreendidos e aceitos. Às vezes parece que estamos em vivendo em um lugar diferente de todos os outros, e assim sentimos a solidão da nossa diferença.

 

E isto acontece também no seio das famílias. Na maioria das famílias poucos membros são altamente sensíveis. Você pode até ser o único. Sua mãe, seu pai, seus irmãos e irmãs… ninguém é tão sensível quanto você. Isso pode torná-lo(a) um alvo fácil para provocações e um motivo de preocupação para seus pais. Talvez eles tenham tentado lhe ajudar a se tornar mais forte (o que só reforçou a ideia de que você era fraco(a) e diferente).  Ou talvez, você tenha crescido se sentindo uma “decepção”, por não ser parecido com seus pais de maneiras que eram importantes para eles.

 

Com o passar do tempo duas possibilidades se abrem para cada PAS. A primeira é aprender a mimetizar o comportamento esperado na família e com isso obter a aprovação que tanto deseja. E a segunda é afastar-se – seja física ou emocionalmente – do convívio familiar. Nos dois casos, a sensação de solidão e desconexão não apenas permanece, como tende a se aprofundar. Embora normalmente não seja muito sentida nas interações mais superficiais do cotidiano, ela permanece latente pronta a eclodir nos momentos mais emotivos. E isto faz da ceia de Natal, e outros encontros em família, um terreno potencialmente minado para muitos de nós.

 

E tem como lidar com isso?

 

Confesso que minha resposta mais sincera é “não sei”. Por um lado, somos quem nós somos e não precisamos mudar, a menos que desejemos faze-lo. Por outro, as pessoas da família constituem uma referência afetiva importante para todos nós e uma fonte – claramente imperfeita – de amor. Por isso entendo que aprender a lidar com este desafio é uma importante fonte de crescimento pessoal e espiritual para todos nós.

 

Penso que o passo mais importante é atuar a partir do respeito e da aceitação. Não importa o quanto sua família e seus parentes possam frustrá-lo(a), não importa o quanto seus hábitos e valores sejam diferentes – e até mesmo opostos – aos seus, eles têm pleno direito de serem quem eles são.  Não é seu trabalho modificá-los e nem levá-los a ver o mundo da maneira como você vê. A sua responsabilidade é deixá-los ser exatamente quem são, onde e quando estão. Cada um deles, assim como você, é o único responsável pelo caminho da própria alma.

 

Por isso aceite. Nem todo mundo vai pensar como você. Quanto mais você puder aceitar esta realidade, mais sua experiência junto a eles será tranquila e festiva.  Quando os seus parentes verbalizarem comentários críticos ou desfilarem suas “certezas” geradas a partir da televisão, recorde que não é seu trabalho mudar ninguém e deixe essa energia passar através de você.

 

Para facilitar esse processo, você pode abrir seus chakras e dizer enquanto inspira, “mantenha o que é meu” e dizer ao expirar: “deixe ir embora aquilo que não é”. Desta maneira, você se manterá atuando de acordo com o fluxo da vida e não bloqueando-o, a partir da ideia de que está sendo atacado(a) e precisa de defender. Como nos ensina a água, é sempre melhor fluir em consonância com aquilo que é do que se deixar estancar pelas pedras e obstáculos do caminho.

 

E com isso meus queridos amig@s eu encerro o trabalho do blog este ano. Desejo-lhe uma época de festas abençoada. Que você, assim como eu, se permita desfrutar das festas da maneira que mais alimenta a sua alma. E que aproveite este período para refletir sobre tudo de bom que este ano lhe trouxe e se preparar para todas as coisas boas que o próximo ano lhe trará.

 

Eu pessoalmente quero agradecer de coração a todos que têm acompanhado o meu trabalho, que têm me escrito confiado em mim e contado sua história. Agradeço especialmente àqueles que entraram em um processo de coaching comigo e me permitiram compartilhar um pedaço da sua vida.  Aprendi muito com cada um e espero que tenha podido ajudar um pouco.

 

Muito obrigada a todos. E até o ano que vem.

 

Beijos e bênçãos,

 

 

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Sobre o autor
Rosalira Oliveira Sou coach com formação em coaching ontológico e especializada em alta sensibilidade. Fiz minha transição recentemente, quando encerrei meu ciclo como pesquisadora e doutora em antropologia cultural e tornei-me criadora do “Ame sua sensibilidade”, um programa de coaching destinado a ajudar as pessoas altamente sensíveis a compreender e integrar em essa sua característica, de modo a viver uma vida com mais felicidade e significado.

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