Ser altamente sensível e querer (escolher) ser feliz

Ser altamente sensível e querer (escolher) ser feliz

30/06/2017 artigos Rosalira Oliveira

 

felicidade mulher

Imagino que você possa estar se perguntado qual a razão deste artigo aqui no blog? Afinal todos nós, sejamos ou não PAS, queremos ser felizes, não é verdade?  Esta não é uma aspiração exclusiva das pessoas com alta sensibilidade. Talvez uma pessoa altamente sensível encontre mais dificuldade em chegar a esse estado do que as demais.  Não que a felicidade (ou a percepção da felicidade) dependa do grau de sensibilidade, mas algumas características associadas ao traço, tais como a tendência a magoar-se facilmente ou a preocupação constante com a aprovação alheia, excessiva com a opinião alheia, entre outras, podem tornar mais difícil para nós conquistar essa sensação de bem-estar. Mas antes de falarmos sobre as PAS e suas dificuldades, paremos um pouco para pensar na felicidade em si mesma e nos muitos significados que atribuímos a esta palavrinha mágica.

 

Essa tal felicidade…

 

Afinal, de que estamos falando quando falamos em felicidade?  De que se constitui esse “algo” que todos buscamos mesmo sem saber muito bem o que é. A resposta, é claro, varia de pessoa para pessoa. Se saíssemos na rua e perguntássemos as pessoas o que as faria felizes, o mais provável é que recebêssemos respostas do tipo: “ganhar na loteria”; “encontrar o amor da minha vida”; “comprar minha casa própria”; “ter um filho”; “trabalhar no que gosto” etc. Poderíamos receber, ainda, respostas que expressam preocupações coletivas, como: “que haja paz no mundo” “que não haja mais crianças passando fome” e coisas assim. Outra categoria possível seriam respostas relacionadas a sentimentos, tais como:  “deixar de ser tão sensível” “que meu marido/esposa me entenda”; “que minha mãe/pai me aceite como eu sou”…, etc.

 

Ainda que sejam muito diferentes entre si todas essas respostas têm, ao menos, um denominador em comum: acenam para uma felicidade que está situada além das pessoas, em alguém ou em alguma coisa que lhes falta Ou seja, em todas elas encontramos a percepção de uma ausência, uma incompletude, que ao ser sanada através de um objeto/pessoa ou condição, nos trará, enfim, a felicidade.  E também a ideia de uma felicidade que não está presente agora, que acontecerá no futuro, no momento em que atingirmos a condição desejada. Infelizmente não é isso que geralmente acontece. Não são poucas as ocasiões nas quais após algum (ou muito) esforço conseguimos alcançar aquilo que tanto desejávamos e descobrimos que o contentamento durou pouco tempo. Passado um período os velhos sentimentos de falta e de incompletude retornam e começamos a desejar outra coisa/pessoa/situação que, enfim, nos fará felizes. 

 

Isso ocorre em parte porque nenhum objeto real corresponde totalmente ao objeto idealizado.  Não importa o quanto a nossa nova vida se torne  diferente quando conquistamos o nosso sonhado objetivo, mesmo assim ela ainda estará cheia de prós e de contras, de aspectos agradáveis e de outros nem tanto: a alma gêmea deixa de ser o príncipe (ou a princesa) encantado para mostrar seu lado difícil e mal-humorado; as férias dos sonhos incluem também momentos cansativos ou  estressantes; a promoção na carreira traz consigo mais trabalho e menos tempo para a família, e por aí vai. Ou seja, embora todas essas coisas sejam importantes para o nosso crescimento pessoal elas não tem o poder de nos fazer mais felizes depois que nos acostumamos a elas.

 

Exatamente por isso penso que a felicidade é uma escolha.  Tem a ver com o nosso olhar e com as interpretações que construímos a respeito da nossa vida e das nossas circunstancias.  Nosso sentimento de bem-estar depende menos das circunstâncias externas e muito mais do significado que atribuímos a elas. É neste sentido que prefiro a expressão cultivo da felicidade ao invés da tradicional busca da felicidade.

 Felicidade como aprendizado.

 

Se a felicidade pode ser cultivada a atenção constitui um dos principais instrumentos desse cultivo. Prestar atenção significa tornar-se consciente de algo. Entretanto, a maioria de nós vive de forma relaxada sem atenção ao presente, presos na rememoração do passado ou na antecipação do futuro. Com isso perdemos o agora, o único momento no qual é possível ser feliz. A tão conhecida frase “eu era feliz e não sabia”, expressa tragicamente esta falta de atenção que nos rouba o momento presente.

 

Estar atento(a) ao mundo a nossa volta, vivendo com plena consciência todas as experiencias diárias, é uma das formas mais poderosas de cultivar a sensação de plenitude e de felicidade. Mas vale lembrar que a atenção é um processo de foco, uma espécie de holofote que ilumina determinados aspectos da nossa experiencia ignorando (ou subestimando) outros. Isto equivale a dizer que a atenção é sempre seletiva. E é aí que reside nossa liberdade de escolha.  Posso escolher concentrar minha atenção naquilo que me falta ou naquilo que possuo. A primeira perspectiva me leva ao sentimento de insatisfação (um dos grandes motores da dinâmica consumista da nossa sociedade) enquanto a segunda alimenta o sentimento de gratidão.  

 

Sim, eu sei que o que você leu acima parece a repetição do conselho da vovó.  Mas adivinhe, a vovó estava certa. Pesquisas cientificas realizadas nas áreas da Neurociência e da Psicologia Positiva, demonstram que não existe felicidade sem gratidão. E mais, ainda, que, ao invés de ser o resultado do sentimento de felicidade a gratidão o precede e contribui para cria-lo. 

 

Mas como a gratidão nos ajuda a criar este sentimento de felicidade? Guiando nossa atenção para as coisas positivas presentes em nossa vida. Todos nós apresentamos uma característica que os neurocientistas chamam de “cegueira não intencional” e que se refere a nossa incapacidade de enxergar algo quando não estamos focados nele, mesmo que esteja a nossa frente. Ocorre que a maioria das pessoas, e as PAS em particular, mantem sua atenção concentrada quase exclusivamente nos aspectos difíceis da vida. A pratica da gratidão redireciona nossa percepção, mudando o foco para as coisas positivas presentes em nossa vida, ampliando a sensação de bem-estar.

 

A boa notícia é que a gratidão é uma habilidade e como tal pode ser aprendida. Trabalhar para desenvolver a gratidão pode ser um aprendizado muito útil e uma das melhores maneiras de aumentar nosso nível de satisfação com a vida. A gratidão também possui um efeito retroalimentador: quanto mais coisas me concentro na gratidão e nas coisas positivas presentes em minha vida, mais coisas positivas e mais motivos de gratidão passo a encontrar.

 felicidade carinhasAs PAS e a felicidade

 

Tenho a impressão de que para nós PAS pode ser mais difícil cultivar este sentimento de felicidade.  Algo que, para falar a verdade, não me surpreende. Penso que, enquanto uma pessoa altamente sensível não estiver consciente do seu traço e da forma como ele influi em sua maneira de ser, a tendência é tropeçar em armadilhas relacionadas a determinadas características da alta sensibilidade que, quando não reconhecidas e trabalhadas, podem atuar como obstáculos a nossa sensação de bem-estar e de paz interior.

 

A primeira delas está relacionada, exatamente, a um dos pilares da alta sensibilidade: a maneira como gerimos a enorme quantidade de estímulos que recebemos. Temos a tendência a processar toda e qualquer informação com muita profundidade, a ruminar e dar voltas e mais voltas a um determinado tema. Esta predisposição pode fazer com que simplesmente não consigamos parar de pensar nas coisas negativas que nos aconteceram e que fiquemos profundamente perturbados por acontecimentos, que por vezes, nós mesmos reconhecemos como triviais e de menor importância.

 

Uma outra armadilha pode ser encontrada na tendência de muitas PAS a se compararem com as outras pessoas, geralmente com pessoas que não tem o mesmo nível de sensibilidade. Muitas vezes olhamos com certa inveja para aqueles que parecem ser “mais fortes” do que nós, mais duros, que não se estressam “por bobagens”, que não “choram à toa” e por aí vai. Esse tipo de comparação tem o dom de nos fazer sentirmo-nos mal a respeito de quem somos e só reforça o sentimento de menos valia. Com isso esquecemos que nossas qualidades são outras e deixamos de apreciar os nossos dons para colocarmos nossa felicidade num ideal que não corresponde ao nosso eu verdadeiro.

 

A terceira armadilha está ligada as duas anteriores e diz respeito ao nosso hábito de julgar e criticar. Quando estamos presos no hábito do julgamento, da crítica e da reclamação não temos como nos sentir felizes. Afinal, qual a razão que nos leva a criticar tanto e tão duramente outras pessoas?  O que nos motiva a sair por aí apontando os “defeitos” dos demais? A resposta, na maioria dos casos, é:  criticamos para nos sentirmos superiores. As pessoas que mais criticam costumam ser exatamente aquelas que apresentam uma autoestima muito baixa, algo comum entre as pessoas altamente sensíveis. Não é de estranhar, portanto, que muitas delas tendam a ser muito críticas não apenas com o seu entorno, como também consigo mesmas.  O fato é que vivendo sob o domínio dessa atitude mental é impossível sentir-se em paz ou feliz. A crítica constante induz a sentimentos de amargura e vitimização. Sentir-se feliz e criticar são atitudes incompatíveis.

 

E agora…. a receita!

 

Oooops, pegadinha! Posso afirmar com toda certeza que não sei a receita da felicidade. E desconfio que nem mesmo os pesquisadores a conheçam. Tudo que sei é que o fato de compreender a felicidade como algo que se constrói e de aceitar a responsabilidade pela construção da minha, diminuiu a ansiedade e aumentou minha satisfação com a vida.

 

Pensando nisso e recordando alguns dos pontos abordados nesse artigo, eu diria que para nós PAS algumas atitudes podem fazer uma diferença significativa no modo como encaramos a nossa vida:

 

  • Não pretender ser outra pessoa, diferente de quem somos.
  • Deixar de nos comparar as outras pessoas e concentrarmo-nos nos nossos talentos/qualidades
  • Conhecer e respeitar nossas necessidades/ limites.
  • Aceitar a responsabilidade por nossas palavras, emoções e atos.
  • Não nos deixarmos dominar pela crítica e julgamento constantes.
  • Aceitar o outro como legítimo outro, reconhecendo-lhe o direito de ser como é.
  • Praticar a autoempatia e a autocompaixão.
  • Praticar a gratidão.
  • Aprender a viver no presente. E deixar de viver ansioso pelo futuro ou amargurado pelo passado

 

Estas são apenas sugestões e não constituem nenhuma novidade, mas sim, coisas que você já ouviu e leu em outros lugares e ocasiões. Talvez elas lhe sejam úteis, talvez não. Cada pessoa sabe qual caminho deve seguir no cultivo da própria felicidade. Do meu ponto de vista, o importante é estar consciente do seu poder de escolha e tomar a decisão deixar para trás as queixas e o vitimismo, assumindo as rédeas da própria vida. Penso que é nesta escolha que reside o primeiro passo para criarmos a nossa felicidade.  

 

Se você sente que a sua alta sensibilidade lhe dificulta tomar atitudes para sentir- mais felicidade e bem estar na sua vida conheça o Programa Ame sua Sensbilidade ou se informe sobre o meu trabalho de coaching pessoal.

 

Beijos e bênçãos,

 

Rosalira

 

Para saber mais sobre o tema:

 

ACHOR, Shawn. O Jeito Harvard de ser feliz: o curso mais concorrido da melhor universidade do mundo. São Paulo. SP: Saraiva, 2012.

 

BEN- SHAHAR, Tal.  Seja Mais Feliz. Editora Academia de Inteligência. São Paulo. SP 2008

 

GRANT, Antony e LEIGH, Alison. A ciência da felicidade e como isso pode realmente funcionar para você. São Paulo. SP: Editora Pensamento Educacional Ltda. 2013.

 

PACHECO, Bibba: O poder da alegria: recupere sua conexão interior e equilibre sua vida.  São Paulo. SP: Editora Gente, 2016.

 

 

 

 

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Sobre o autor
Rosalira Oliveira Sou coach com formação em coaching ontológico e especializada em alta sensibilidade. Fiz minha transição recentemente, quando encerrei meu ciclo como pesquisadora e doutora em antropologia cultural e tornei-me criadora do “Ame sua sensibilidade”, um programa de coaching destinado a ajudar as pessoas altamente sensíveis a compreender e integrar em essa sua característica, de modo a viver uma vida com mais felicidade e significado.

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